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	<title>Pelvini &#187; devaneios</title>
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		<title>Metafísica da Pessoalidade</title>
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		<comments>http://pelvini.com/2009/10/metafisica-da-pessoalidade/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 21:20:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pelvini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos Desafiadores]]></category>
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		<description><![CDATA[Desafie-me um Texto #23 Essa semana na aula de piano fiquei super feliz, a professora pegou músicas do segundo ano pra eu tirar xerox e começar a treinar. Tudo bem que ainda não completei um ano de piano clássico, mas &#8230; <a href="http://pelvini.com/2009/10/metafisica-da-pessoalidade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><strong>Desafie-me um Texto #23</strong><br />
<em>Essa semana na aula de piano fiquei super feliz, a professora pegou músicas do segundo ano pra eu tirar xerox e começar a treinar. Tudo bem que ainda não completei um ano de piano clássico, mas vamos que vamos. <em><span style="text-decoration: underline;">O Meu Desafio</span>, </em>não sei se é realmente um desses super desafios, mas aqui vai:</em></p>
<p><em>Desafio-te a escrever o que sentiu ao ouvir cada Bachiana de Villa-Lobos. Não lembro de já ter lido algum comentário teu sobre música clássica então te forço a fazê-lo. Diga o que te fez lembrar ao ouvir cada uma, um cheiro da infância ou uma sensação futura, escreva essas sensações e indique um pouco de música erudita ao teu público, por que não?! </em><strong>(Dáina G. Silva)</strong><em><br />
</em></p>
<p>Sou um fã quebrado de música clássica: conheço muito menos do que gostaria, ainda que  já estivesse familiarizado com a obra magnífica de <a href="http://www.museuvillalobos.org.br/index.htm" target="_blank">Heitor Villa-Lobos</a> &#8211; por sorte, e sobretudo, com as Bachianas. Infelizmente, as Bachianas de Villa-Lobos não me evocam nenhuma memória pessoal.</p>
<p>O texto a seguir, no entanto, foi gerado enquanto eu ouvia &#8211; no<em> repeat</em> &#8211; a <em>Bachiana Brasileira Nº 9 (Prelúdio: Vagarosa e místico &#8211; Fuga: Poco apressando &#8211; Tempo I &#8211; Grandioso)</em>.Você pode ouvir a composição se fizer o download dela <a href="http://rapidshare.com/files/293505649/05_-_Bachianas_Brasileiras_No.9_-_Prel_Vagaroso_E_M__stico_-_Fuga_-_Tempo_1_-_Grandioso.mp3" target="_blank">clicando aqui</a>.</p></blockquote>
<p style="margin-bottom: 0cm;" align="left">Só uma pequena reflexão,  dessas que resultam de um suspiro seco e silencioso de susto; é uma  pseudossinfonia, orquestrada por reconhecimentos possivelmente tardios e  insinceros, desses que eu tive em vida. São poucos parágrafos sobre <em>o que </em>reconhecem duas pessoas distintas, a primeira pessoa certamente apaixonada e  a segunda pessoa apenas uma sombra na plateia – dessas que você vê de relance  quando está no palco. Sei como é isso, mas não porque fui regente de orquestra, e sim  porque a primeira pessoa foi e me contou como é. Então não se pode esperar por  uma obra imparcial, até mesmo porque eu mesmo tomei um lado ao decidir escrever. Posso ser impessoal, mas sei bem no que acredito.</p>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Lá, um suspiro. A segunda pessoa foi  avistada pela primeira, sendo que uma das duas não estava ciente disso – e é  claro que é a primeira, ela que viu. Explico: a segunda pessoa é mais vista e  assediada do que a primeira e sempre sabe que é vista. Só a primeira pessoa,  iludida e fantasiosa, não está ciente disso, afinal de contas precisa acreditar  na sua possibilidade de ser única. Fora que ela não consegue se ver vendo. É uma  possibilidade que, convenhamos, eu não vejo existir. Desculpe, agora não me  referia sobre ver-se, mas sobre essas esperanças de dois. Essas existem. Eu  mesmo torço para que que a primeira pessoa, singular, se encontre no fim do seu  texto com a segunda pessoa, e que ambas possam ser plural. Mas veja: eu não aprendi  como conjugar verbos enquanto terceira pessoa. Tenho o péssimo costume de me  protagonizar.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Mas foi do suspiro assustado que  surgiu a esperança da primeira pessoa que, dias depois, foi perguntar para um  amigo o que ele achava da segunda pessoa. Certamente que ouviu algum tipo de  incentivo, ou talvez precisaríamos terminar essa história aqui. Eu esqueci de  dizer que a primeira pessoa era facilmente incentivada por palavras amigáveis, e  gostava de acreditar em verdades geralmente inventadas por ela. Isso, com  certeza, confundia a realidade verdadeira. Pra piorar, coloque na partitura o  momento em que a segunda pessoa fez confundir a primeira pessoa com dois olhares  – só dois, jura a primeira pessoa –, dois olhares de reconhecimento.</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Quem inventou o olhar mútuo era  louco e era doente; ambas as coisas são ruins de alguma forma, ainda que,  pensando com irônico otimismo, possam trazer aprendizados irreversíveis. E o que  dizer de dois olhares mútuos, cada um com apenas um segundo cada? Eu digo que  encaro isso com alguma gravidade, não posso mentir: é louco e doentio  acreditar que tanta coisa pode ser vista e enxergada e reconhecida no resultado  de dois olhares em dois segundos.</p>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm;">E eu não estou tentando injetar  emoção em você, estranho ou estranha, pessoa cuja existência é um fio, já que  quarta pessoa só conjuga um verbo, “eu observo”, na primeira <em>impessoa</em> do  singular. Você que observa a terceira pessoa, eu, falando sobre a segunda e a  primeira pessoas observando-se e reconhecendo-se, você não deve e talvez nem  possa se emocionar. Sabe por quê? Ora, o novo suspiro seco veio da primeira  pessoa, não de você. Ou de mim. E a primeira pessoa já tinha visto e suspirado  uma vez antes. Só que da segunda pessoa veio, juram, curiosidade. E aqui você,  quarta pessoa, entra também, porque observar é um ato de ser curioso. Pode se  emocionar: juram que sim.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">E ser olhada com curiosidade bastava  para a primeira pessoa. Subindo as escadas, ela podia ouvir os violinos que  emanavam suspense e que lhe escondiam e premeditavam uma armadilha feliz. Ser  vista com curiosidade, para a primeira pessoa, já bastava para inventar um  contato inexistente no futuro mais-que-perfeito (eu dissera que a primeira  pessoa gostava de acreditar em verdades inventadas, e não estava mentindo).</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Pobre primeira pessoa: a imagem que  passei dela, de apaixonada obsessiva, é tão palpável. Ainda que injusta, eu  diria, pois seguir a segunda pessoa – de longe –, coisa que um dia fizera, para  saber onde a outra estava indo, é muito mais um ato de desespero que de  obsessão. Talvez dos dois. Eu com certeza afirmaria, no entanto, que a primeira  pessoa foi movida por paixão criada. É o tipo de bobeira que os inventores  adoram fazer.</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm;">E é assim que termina essa  pseudossinfonia sobre reconhecimentos julgáveis feita por personagens  conjugáveis. Termina sem fim mesmo, já que certos olhares mútuos duram o  infinito. E também a memória da boa música é mágica eterna para o silêncio. De  qualquer forma eu não escrevi para contar uma história de encontros. Escrevi  sobre reconhecimentos, e, meu Deus, desgastei pessoas demais, inclusive a mim,  para falar disso. Maldita metafísica da pessoalidade, tão impessoal. Parece eu,  que nem em mim acredito.</p>
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		<title>Para: Lúcio Trevisan</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Aug 2009 20:15:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pelvini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos Desafiadores]]></category>
		<category><![CDATA[cigana]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[desafios]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
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		<description><![CDATA[Desafie-me um Texto #18 Eis meu desafio: Imagine um escritor que depois de terminar seu romance mais importante se depara, uma noite, com um de seus personagens. Como seria, Pelvini, o diálogo entre criador e criatura na penumbra de um &#8230; <a href="http://pelvini.com/2009/08/para-lucio-trevisan/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<blockquote>
<div><strong>Desafie-me um Texto #18 </strong><br />
<em>Eis meu  desafio: Imagine um escritor que depois de terminar seu romance mais  importante se depara, uma noite, com um de seus personagens. Como seria,  Pelvini, o diálogo entre criador e criatura na penumbra de um quarto abarrotado  de livros em uma madrugada chuvosa e fria? O que o personagem de um romance  poderia dizer ao seu criador? Considere que esse personagem assume a forma  física do próprio escritor quando este ainda era um adolescente, de modo que ele  tem diante dos olhos a si mesmo antes da maturidade, algo que deve ir  descobrindo aos poucos. De acordo como o diálogo se desenrolar ele deve  reconhecer a si mesmo e perceber o quanto mudou. </em><strong>(Rafael Lotério)</strong></div>
</blockquote>
</div>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm;">A chuva e o vento castigavam as  janelas da mansão Trevisan com uma força nada natural para aquele verão de 1994.  A lama excessiva que se acumulara na estrada tornava o caminho perigosamente  escorregadio. E, se alguém ousasse tomar rumo até a construção de tijolos da  família Trevisan, se decepcionaria caso esperasse encontrar um lugar preenchido  por uma família feliz. Encontraria, sim, uma única janela iluminada, no quarto  mais alto da casa, este que ficava defronte a floresta que delimitava o fim da  propriedade.</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Dentro deste quarto, Lúcio Trevisan  parou com a pena no parágrafo mais promissor da obra: o último. Dedicara-se a  esse trabalho nos últimos seis meses; e sua aparência não poderia estar pior.  Sua barba agora cobria os machucados da última vez que ele fora tentar  arrumá-la, as roupas que ele usava no momento, pijamas, já estavam em seu corpo  fazia uma semana. O cabelo, antes bem cuidado, caía-lhe até os ombros – molhado,  embora sujo. Lúcio resolvera, nos dias que se passaram depois do início das  chuvas, que a única forma de manter-se lúcido era ficar parado no jardim e, com  a água gelada que as nuvens enviavam a cântaros, agarrar-se ao fio de realidade  que o frio lhe causava ao fazer tremer seus ossos.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">E naquele momento, sua mão tremia,  mas não de frio. Tremia de emoção, a tinta na ponta da pena pingando na  centésima oitava folha de pergaminho, sujando o espaço dedicado ao parágrafo  final de sua mais importante obra. Como regredira a ponto de escrever a pena e  em pergaminho, como regredira a ponto de isolar-se em sua casa e usar velas no  lugar de lâmpadas, como regredira a ponto de usar a mesma roupa por dias, como  regredira a ponto de achar que o único acesso à consciência chegava pela  água da chuva&#8230; São coisas que exigem regressão no tempo pra explicar.</p>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Dizia-se pelo vilarejo, e  provavelmente não se enganavam, que Lúcio e Débora eram o casal mais bonito e  alegre que já viram morar na mansão Trevisan. Inabitada por um mês após a morte  do tio que Lúcio nem sabia que tinha até o dia do velório, a bela construção na  estrada era perfeita para um casal jovem e bonito viverem uma lua-de-mel eterna  e terem muitos filhos para brincarem ingenuamente no jardim e fazer cruzadas  pela floresta. Sim, essas eram as promessas que corriam pela língua longa e  solta dos habitantes do vilarejo, e estes, com o passar do tempo, veriam que  estavam parcialmente corretos.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Porque realmente falavam que Lúcio e  Débora, um casal promissor vindo da metrópole no final de 1991, era mesmo feliz.  Enquanto o serviço de mudança arrumava as coisas na mansão, os dois passearam  pela cidade no Mercedez de Lúcio e cumprimentaram os moradores. O sorriso de  Débora, encantadoramente emoldurado por longos cabelos loiros, tornou-se  comentário (e alívio) para aquela tarde quente, ao passo que a expressão de  grande satisfação em Lúcio causou a certeza de uma vida feliz no interior para  os dois. Obviamente, todos sabiam quem era Lúcio Trevisan: era o autor de pelo  menos quatro best-sellers dos últimos dois anos e as vezes as pessoas diziam,  “uma excelente forma de se ganhar dinheiro sem realmente trabalhar, muito  obrigado”.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Claro. A impressão de felicidade que  os próprios moradores atribuíram ao casal Trevisan não podia durar tanto tempo.  Impossível que eles não tivessem um defeitinho sequer, algo que botasse abaixo a  perfeição irritante que os dois emanavam estivessem sozinhos ou não. Um ano  inteiro se passou para que buscassem algo e, de fato, acharam. Afinal de contas,  quando é que o casal Trevisan iria gerar o herdeiro de toda aquela perfeição e  riqueza? Mais um ano se passou e, a única resposta possível aos fofoqueiros era:  nunca.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Afinal de contas, um desses  fofoqueiros, através da noiva do irmão da tia da empregada que trabalhava na  mansão Trevisan quando o casal não estava, descobriu que Débora Trevisan não  poderia ter filhos nem com o mais caro dos tratamentos. Dizia-se, ainda, que com  o passar do tempo e crescimento dos comentários, Débora entrou em profunda  depressão por causa disso. Seu sonho, desde criança, era ser mãe. Finalmente, no  início de 1994, Débora enlouqueceu. Enrolou uma corda no pescoço, amarrou num  balaustre e voou para a morte.</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm;">E foi a última vez que alguém viu o  rosto de Lúcio ou Débora Trevisan: no enterro da mulher. Desde então, a relva  subiu pelas paredes da mansão, o Mercedez ficou encostado no jardim, agora  tomado por mato alto e ervas daninhas, a empregada foi demitida por telefone e,  logo, a imponente mansão Trevisan mais parecia um enorme mausoléu abandonado.  Quanto ao sobrevivente Lúcio Trevisan, dizem que também enlouquecera, mas que  preferia a solidão ao suicídio. Nunca mais fora visto na mansão e, quando  cortaram a luz do local em março daquele ano, ninguém quis se aproximar – ainda  que alguns jovens curiosos dissessem que, à noite, uma única luz  bruxuleante surgisse de um dos quartos da casa, e nem mesmo a chuva pesada  impedia-os de ver a silhueta de uma pessoa andando pra lá e pra cá.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Infelizmente, a versão “Dizia-se” da  trágica história do casal Trevisan excluía a personagem essencial pra essa  história: uma cigana, uma velha enrugada e baixinha que aparecera na região no  dia da mudança dos dois. Ela surgiu na primeira noite de Lúcio e Débora na mansão. Bateu na porta  com os nós dos dedos sujos. Lúcio abriu e deparou com aquela velha de pele imunda e vestido cor de circo, um olho cego e fedendo a álcool barato. Ela pediu para ficar uma noite, pois viera andando de muito longe e estava cansada e com fome.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">Lúcio, no alto de sua felicidade cega, disse “não”. Fez menção de fechar a porta no nariz dela, mas a senhora meteu o pé no vão, segurando a porta. “Por favor, senhor, só lhe peço uma noite”. Lúcio olhou bem no fundo dos olhos dela. “Saia daqui, sua velha vagabunda, ou chamarei a polícia”. Forçou a porta, a cigana lançou o corpo contra o mogno, e disse “Feche essa porta e irá se arrepender para sempre”. Lúcio riu. “E a senhora é quem? A bruxa velha de A Bela e a Fera?”, disse, batendo a porta na cara dela em seguida.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;"><span id="more-1183"></span>“Quem era?”</p>
<p>“Ninguém, amor.”</p>
<p>“Ah, que bom, não queria receber ninguém, estou exausta”, disse Débora, enquanto tirava os saltos. Tinham acabado de chegar da primeira visita ao vilarejo. “E parece que vai chover”.</p>
<p>Dito isso, um trovão irrompeu lá fora, alto e invasivo. Antes de seguir a esposa para o quarto, Lúcio deu uma espiada pela janela próxima da porta. Nunca se sabe o que esses lunáticos podem fazer. Puxou a cortina em tempo de ver uma sombra parada no jardim, a sombra de uma mulher encurvada pela velhice. Maldita cigana! Deveria ir lá fora dar um safanão nela. Mas houve um relâmpago, uma trovoada – e a sombra no jardim escuro desapareceu.</p>
<p>À medida que o tempo passava e as fofocas cresciam, o que Lúcio tinha de precioso foi desaparecendo. Tudo começou com a chegada de um advogado, já no dia seguinte, dizendo que como parte da herança, recebera também uma dívida milionária; ao passo que Débora encontrava um defeito novo a cada dia, fossem rachaduras enormes nas paredes atrás dos armários, fossem problemas do encanamento, fossem as plantas no jardim que “não importam o quanto você poda, elas crescem na velocidade mais absurda”.</p>
<p>No entanto, ervas daninhas eram o menor dos problemas de Lúcio Trevisan. A dívida oculta que herdara era tão alta que nem se ele vendesse a mansão e o Mercedez ele conseguiria pagá-la. Ao mesmo tempo, a coluna que escrevia em um jornal deixou de existir por um tal “corte de custos”, e iniciar um livro agora era um filho que ele não estava disposto a parir. E pior: seus livros – os quatro best-sellers – saíram repentinamente da lista de mais vendidos e caíram num estranho ostracismo.</p>
<p>Como um homem em dívidas é um homem perdido, Lúcio já não fazia mais a barba e o cabelo, além do que, dizia Débora – que nada sabia da dívida que os faria perder tudo –: “seu olhar tem estado cada vez mais desfocado e distante”.</p>
<p>&#8220;É claro que está. Nós temos uma dívida impossível de ser paga, uma mansão que por dentro está em ruínas, o motor do Mercedez já não funciona, eu não pago as contas há dias, nenhum editor quer meus serviços e eu mal consigo escrever!”</p>
<p>“Céus Lúcio, você deveria ter dito alguma coisa”.</p>
<p>“Dizer que estamos arruinados? A julgar pelo mato no jardim, pensei que isso estivesse claro!”</p>
<p>“Poderíamos ter pedido ajuda”.</p>
<p>“Os bancos mal sabem separar a palavra &#8216;processo&#8217; do sobrenome Trevisan. E família? Você não tem família, nem eu. Nós não temos família, Débora!”</p>
<p>“E eu estou grávida”.</p>
<p>O silêncio após isso durou dias e custou uma vida – a de Débora. Quando vieram buscá-la, Lúcio não soube explicar os motivos que a levaram ao suicídio. E quando ligaram perguntando se ele soubera da gravidez dela – foi a última ligação que recebera antes de cortarem a linha – a resposta dele foi direta: “Não”.</p>
<p>Uma noite, em companhia de uma vela, uma lata de ervilhas e um cigarro – voltara a fumar –, Lúcio ouviu uma voz.</p>
<p>“Já se arrependeu?”</p>
<p>Havia tristeza e raiva e silêncio em Lúcio.</p>
<p>“Eu aceitei a herança antes de te conhecer. Você não tem nada a ver com isso.”</p>
<p>“Isso não significa que eu não possa devolver as coisas que você perdeu.”</p>
<p>Lúcio levantou a cabeça. Sabia que deveria se levantar, espancá-la, talvez matá-la. Mas não conseguia. Apenas disse:</p>
<p>“Você é louca”.</p>
<p>A cigana se aproximou da luz. Lúcio discerniu uma trouxa de roupa nas mãos dela, que ficou sobre a mesa quando ela a soltou. Vagarosamente, a velha caolha desfez o nó, revelando seu interior.</p>
<p>“Eu tenho aqui folhas de pergaminho, uma pena e tinta”, disse, tirando as coisas do pano e colocando na mesa. “Tudo o que você tem que fazer, Lúcio&#8230; É escrever um livro”.</p>
<p>Dito isso, a mulher se afastou da mesa. “É só isso?”, pensou Lúcio, que mesmo estreitando os olhos, não enxergou nada além da densa escuridão na cozinha.</p>
<p>A carta chegou no dia seguinte – uma ação de despejo. Anunciava, também, o confisco do Mercedez como garantia da dívida. Aquela tarde, Lúcio tomou uma decisão, Levou consigo as coisas da cigana para o quarto de livros, uma pseudo biblioteca, e os agrupou na mesinha que ficava no centro do cômodo. Ali sentou, se sentindo a criatura mais estúpida do universo. Tanta coisa acontecendo e ele atendendo ao pedido de uma cigana velha. Ele nem tinha o que escrever, não tinha uma história para contar.</p>
<p>Não tinha uma história&#8230; Foi esse vazio branco que fez com que Lúcio resolvesse contar a história que, sabia ele, tinha começo e meio bem definidos: a sua história. Intitulou o topo da primeira página de “Lúcio, uma autobiografia”. E começou a escrever. Durante os dias que vieram, foi tudo o que fez, parando apenas algumas vezes para engolir o conteúdo das latas de comida e aventurar-se no banheiro sujo.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">“É o material da cigana”, disse Lúcio de si para si, “Me faz escrever sem pensar, me faz apenas escrever”.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">O que parecia ser verdade, já que em poucos dias ele já começara a escrever sobre o velório do tio desconhecido, quando dera as boas notícias para Débora, a mudança – e a cigana. Quando percebeu, estava próximo ao final, no penúltimo parágrafo.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;"><em>Por ordem da velha cigana, sentei-me controverso durante dias e noites para escrever minha biografia; utilizando-me da pena, da tinta e do papel velho que ganhara dela. Disse-me a cigana que recuperarei tudo ao terminar, é algo que estou fazendo agora.</em></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Tem mesmo certeza disso?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Quem está aí?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">O susto foi tão súbito que, ao se levantar, Lúcio derrubou a cadeira e esbarrou na mesa; alguns pergaminhos foram ao chão.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Havia alguém na penumbra do quarto, ele podia distinguir um vulto próximo à porta, ao lado da parede de livros. Isso lembrara ao homem a noite na cozinha, quando a cigana veio visitá-lo. O fato de chover e trovejar não era animador.</p>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Quem é você?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Eu sou o meio.”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Lúcio estava paralisado. A voz era familiar, e era masculina.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Não entendo. É um ladrão? Não tenho mais nada.”</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Perdeu tudo para uma cigana, certo?”</p>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Foi ela quem te mandou?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“De certa forma.”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Estúpida! Porque ela te manda aqui se já me tirou tudo?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Você realmente tem certeza de que tudo lhe foi tirado&#8230;  Foi tirado por ela?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">A chama da vela tremeluziu, e um silêncio longo tomou a sala.</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“As pessoas dizem que sou arrogante”, confessou Lúcio, sem entender porque falara aquilo de repente.</p>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Sim, eu sei”, disse o visitante desconhecido, “Acho que a arrogância faz crescer o orgulho. Essa combinação nos fez mesquinhos.”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Nos fez? Quem é você?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Sou um mero personagem do seu livro. Faço parte de você.”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Devo estar sonhando ou enlouquecendo.”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">O vulto continuou longe do alcance da luz. Disse:</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Quem é você, escritor?”, a pergunta interrompeu os devaneios de Lúcio.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Que pergunta! Eu sou Lúcio Trevisan!”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Houve outra pausa.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Interessante”, disse a sombra, dando passos lentos a frente e revelando-se, “Eu também sou Lúcio Trevisan”.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Lúcio olhou para o visitante. Era ele, uma versão de si mesmo vinte e poucos anos mais nova. Como ele bem dissera&#8230; Fisicamente vivo, o personagem de seu livro: o principal, ele.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Como&#8230;?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">O adolescente apontou para a pena pousada na mesa. Lúcio, vagarosamente, levantou a cadeira do chão e sentou-se. Estava transtornado.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Em que momento eu deixei de ser eu mesmo pra me transformar em você?”, perguntou o jovem.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Calado, somos o mesmo.”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Talvez. Mas minha pergunta envolve as suas escolhas. Porque sim, eu sou você, mas não passo de uma figura. E em mim ainda há resquícios de inocência. Em que momento ela se perdeu e nos fez você, Lúcio?”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Lúcio silenciou, deixando escapar um sorrisinho debochado por entre sua barba.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Através da dor, seu tolo.”, falou, carregando na ironia, achando inusitado o fato de ofender-se e recriminar-se. O adolescente, no entanto, estava impassível.</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Entendo.”, disse ele, com tristeza. “Em algum momento passamos a desdenhar da dor e a tentar ignorá-la.”</p>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Ouvir isso abalou Lúcio de três formas: era maduro demais pra ser dito por alguém tão jovem; era maduro demais pra ser dito por si mesmo, era verdade.</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Acho que já temos o seu último parágrafo, Lúcio. E com ele, recuperaremos tudo o que você perdeu de uns tempos pra cá.”</p>
<div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Cerimoniosamente, Lúcio virou a cadeira, arrumou-se na mesa, pegou a pena, molhou a ponta na tinta. Releu a última linha do último parágrafo &#8211; <em>recuperarei tudo ao terminar, é algo que estou fazendo agora. &#8211; </em>viu-se sozinho, sentiu a mão de si mesmo em suas costas e escreveu.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;"><em>Colherei por completo, depois de tanto tempo, a minha dor.</em></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">E então ele chorou.</p>
</div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Dizem que, na manhã seguinte, quando os homens da Justiça chegaram para despejá-lo, encontraram Lúcio sozinho num quarto cheio de livros, chorando agachado em um canto. Havia uma mesa no centro da sala, onde a cera de uma vela secara vertiginosamente na madeira.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Não toque nos meus escritos”, pediu Lúcio em meio a um pranto desesperado, “Não toque!”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">O homem que estendera a mão olhou para a mesa e depois para Lúcio.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">“Não há nada aqui além de uma vela queimada, senhor.”</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Naquele dia, Lúcio Trevisan foi levado embora. Conta-se que vive até hoje num hospício, uivando de dores. Os homens do despejo contam, arrepiados, que o homem gritava quando os homens da ambulância o tocavam, como se estivesse sendo queimado pelas chamas do inferno. É, é o que dizem. Quanto a autobiografia de Lúcio &#8211; que poderia ser intitulada de Lúcio Trevisan: a Expiação -, nunca fora lançada. Nem encontrada.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;">Cerca de um mês depois, a mansão Trevisan – que os rumores diziam ser mal assombrada e amaldiçoada – foi vendida. A compradora, como fiquei sabendo, era um senhora estranha, cega de um olho, vestida com roupas de cigana. Ela nunca morou lá, e a mansão é destruída pelo tempo – como se cada dia fosse a dor das paredes de concreto.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal; text-align: left;">E essa é a história que me contaram.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" align="RIGHT"><em>Lúcio Trevisan</em><br />
Manicômio Santa Paulina, 25 de Agosto de 2009</p>
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		<title>Entre Três e Quatro Horas</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Mar 2009 04:48:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pelvini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano Revivido]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[madrugada]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem um copo de plástico sujo em cima da minha mesa, logo ao lado do teclado. O resto do líquido escuro diz pra mim que eu preciso tomar mais Coca-Cola se quiser ficar acordado até o amanhecer: comprei dois litros, &#8230; <a href="http://pelvini.com/2009/03/entre-tres-e-quatro-horas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal"><span>Tem um copo de plástico sujo em cima da minha mesa, logo ao lado do teclado<strong><em>.</em></strong> O resto do líquido escuro diz pra mim que eu preciso tomar mais Coca-Cola se quiser ficar acordado até o amanhecer: comprei dois litros, e a garrafa ainda está pela metade. No canto da tela, mesmo sendo tão pequeno, o relógio do computador consegue ser acusador: 03h04min.<span>  </span>Todas as luzes estão apagadas e meu companheiro de trabalho está atrás das mesas, dormindo no chão, cortando o silêncio noturno com roncos baixos e casuais. Digito com os dedos muito próximos às teclas, para fazer menos barulho. É ruim ser incomodado quando está dormindo, é uma lei universal. Em contrapartida, percebo que o fone que tampa um de meus ouvidos está transmitindo a música num volume um tanto quanto alto. Após abaixá-lo – agora, um piano paciente e calmo parece estar tocando ao longe – me arrumo na cadeira giratória. Estou faz quatro horas aqui, sentado, em gradual processo de simbiose com o móvel mais típico dos escritórios; ao lado das mesas e famigeradas “P.A.s” <em>(Posição de Atendimento, acho)</em>. Esse tipo de móvel é tão comum&#8230; Em escritórios. Tanto que, se você for fazer compra de móveis via internet, tem lá a sessão “móveis de escritório”. Móveis específicos para escritórios de trabalho: não uma lei universal, mas uma lei trabalhista. A não ser, é claro, que você trabalhe no Google.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span> </span>Mas o que eu fazia mesmo? Ah sim, descrições.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>A sala em que meu companheiro e eu trabalhamos, na verdade um conjugado com duas salas divididas por uma parede, fica no sexto andar de um prédio comum de uma das esquinas da Vila Mariana. Fica bem ao lado do metrô, pouco mais de cem passos <em>(eu já contei)</em>. Daqui de cima é possível ouvir os carros passando lá embaixo, pelo menos até as três da manhã. É por aí que eu me guio sobre o quanto São Paulo está funcionando. Eu sei que você deve estar pensando, “ah, mas São Paulo nunca para” – eu sou a prova viva disso – mas, se não para, definitivamente reduz a velocidade. Por uma hora, entre três e quatro, não passa um único carro por aqui. O trabalho também rareia. Meu companheiro é bom conservador, mas também é um bom dorminhoco. Assim, em momentos insones e parados, me resta abrir a janela atrás da minha mesa e observar a cidade que, em sua maioria, adormece.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Há prédios quebrando a linha do horizonte e o céu está roxo. Minto, o céu está como deveria estar, as nuvens é que estão roxas. Não consigo enxergar a lua daqui, mas a despeito das luzes amareladas dos postes, a noite parece bem clara. Uma das antenas multicoloridas da Avenida Paulista brilha muito lá na frente, me trazendo memórias distantes da época em que lá morei. Meus olhos desviam um pouco mais para a direita, para a sacada do prédio residencial de fachada branca. Já contei – é no oitavo andar – e, como em todas as madrugadas desde que comecei a observar, aquela luz está acesa. Minha visão sofre de hipermetropia e o prédio está longe, então não consigo enxergar o que há além da porta de vidro <em>(e, mesmo que pudesse talvez o ângulo não favorecesse um bom panorama do apartamento; como não enxergo bem, ambos ficaremos sem saber)</em>. O que será que há ali? Será o quarto de um menino com medo de escuro? Ou um casal com taras secretas que só podem ser realizadas entre três e quatro horas da manhã? A segunda hipótese me parece menos próxima da verdade. A maioria dos casais faz sexo no escuro&#8230; E se ali for um antro do crime? Um lugar onde traficantes fazem leilões de papelotes, seringas e pílulas pouco gustativas? <span> </span></span></p>
<p><span>Meu amigo dá um bocejo alto, está acordando. Nem reparei, mas o celular dele está tocando a música da cavalaria em versão monofônica, está despertando. Já devia ser quatro horas da manhã.</span></p>
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		<title>Quereres e Outros Saberes</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Sep 2008 03:23:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pelvini</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antigos Mas Revividos]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[passado]]></category>
		<category><![CDATA[pensamentos]]></category>
		<category><![CDATA[saudades]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje fui invadido por uma sensação que nunca senti antes, não tão intensa como dessa forma: inveja. Eu sei que não é nem um pouco bonito falar, mas acho que tinha de escrever sobre isso. Mas hoje eu vi uma &#8230; <a href="http://pelvini.com/2008/09/quereres-e-outros-saberes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje fui invadido por uma sensação que nunca senti antes, não tão intensa como dessa forma: inveja. Eu sei que não é nem um pouco bonito falar, mas acho que tinha de escrever sobre isso. Mas hoje eu vi uma pessoa &#8211; prefiro não entrar em detalhes &#8211; e percebi que, nunca, em toda minha vida, poderei ser igual a ela. Não exatamente igual, entende, mas com certas características que eu gostaria de ter. Certas coisas que eu gostaria de ser&#8230;</p>
<p>E aí vem toda aquela a minha paranóia de sempre: o medo de não ser aceito, o medo de nunca ser feliz, o medo de não encontrar um amor&#8230; Ou encontrar e descobrir que não somos feitos um para o outro. Eu sei que não parece tão aterrorizador pra você, mas pra mim é praticamente um pesadelo vivo. Já pensou? Ficar sozinho e, pior de tudo, com todo mundo te olhando estranho?</p>
<p>Eu sei bem como é isso. Não que já tenha passado por situação semelhante, mas eu sei que a hora vai chegar.</p>
<p>O momento inevitável da despedida. Da despedida que eu jamais gostaria de fazer. Mas que eu terei de fazer, se quiser viver a minha vida. E é nessas horas que eu vejo que estou realmente sozinho, porque a decisão é toda e absolutamente minha e, por mais que a carga possa ser dividida, o mais abalado serei eu.</p>
<p>E se a carga que eu carrego for muito maior do que aquela que eu posso suportar? <em><br />
- Após descer uma rua com as lágrimas escorrendo. ( Texto escrito em 20 de Outubro de 2005)</em></p>
<p style="text-align:center;">* * *</p>
<p>Eu quero coisas simples de volta.</p>
<p>Quero aquelas benditas madrugadas 2004/2005.</p>
<p>Quero poder assistir Felicity, enquanto conversava com a Nathy.</p>
<p>Quero aquela espera eterna por 24 Horas.</p>
<p>Quero voltar para aquele tempo perfeito e poder conhecer novamente Pure Shores e passar algumas músicas pra nathy e me apaixonar por No Doubt.</p>
<p>Quero a amizade do Vini de volta, e nossos janelões despreocupados e divertidos. Quero ser zuado de novo por não saber o que é &#8216;pala&#8217;.</p>
<p>Quero acreditar que vou ter aquela felicidade despreocupada de antes. Quero a paz aqui de casa de novo.</p>
<p>Quero não ter que me preocupar com os problemas mais recentes da minha vida.</p>
<p>Quero voltar a jogar RPG da Merlien. Quero poder visitar o Egito, a Índia e a Inglaterra em alguns posts.</p>
<p>Quero conversas malucas e longuíssimas via icq.</p>
<p>Quero chats do trio, no icq também. Quero poder reescrever Poder e reviver a excitação inicial junto de flávia e julie.</p>
<p>Quero voltar a assistir os programas da cultura, que tanto via em 2003. Quero andar de bicicleta com o paulo.</p>
<p>Quero sair e não ter que ir pra escola a noite.</p>
<p>Quero saber o que fazer da minha vida.</p>
<p>Quero fazer as escolhas corretas.</p>
<p>Quero saber porque tudo é tão difícil.</p>
<p>Quero saber porque algumas respostas são tão impossíveis de se encontrar.</p>
<p>E depois acordo e não quero mais saber de nada.<br />
<em>- três anos depois e a grande maioria dos quereres continuam os mesmos. (texto escrito em 3 de Novembro de 2005)</em></p>
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