Orgulho da Minha Sala

Dentro do meu peito não aprendi a suplicar. Servi no copo um bocado de alma, e esperei. Entendo um pouco de paciência, e melhor abstrair os conformismos que nada muito bom pode vir daí: seguro pelas pontas a toalha xadrez que cobre a mesa e olho com nervosismo para a prataria, os vidros, o café, os cigarros, meu copo de alma. Fecho os olhos e puxo o pano com força e rapidez. Algumas das minhas melhores emoções começaram assim, de um constrangimento; constrangimento em achar que dificuldade é sinônimo de aprendizagem. Eu acho isto, sim, mas adorarei o dia que o mundo se desfizer em fácil. Dobro a toalha com carinho e certa brandura, coloco-a no canto da mesa e percebo um pouco de alma derramada na madeira. Sorrio, lembrando que não se pode devolver a bebida da alma para o coração da garrafa, mas, se um dia foi para o copo, valeu à pena oferecer. Mais um copo de alma, tudo bem. Ele fará companhia à mesa e esperará. Dentro do meu peito, essa sala de solitários triunfos, não aprende-se a suplicar.

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Para Lilian

Lilian significou para mim, nas idas alagoanas: surpresa. E não, a surpresa não está na inebriante beleza de sua existência, nem no seu jeito delicado de falar, ou na sua forma ponderada de organizar os pensamentos… Isso eu percebi ao longo dos dias e das experiências de encurralar o coração – cem crianças em uma tarde de recreação infinita, várias meninas querendo uma pose pra foto, um lenço caído de presente na festa da cavalhada – mas em dois momentos específicos que lhe falarei agora.

Lembro das mãos de Lilian. Não, isso é engano: não lembro do que nem de como elas eram, mas lembro de vê-las. Eu ia rumo ao meu quarto e encontrei-as, as mãos de Lilian, lavando alguma peça de roupa. Engoli em seco, porque eu sempre tenho essas pequenas realidades e nunca posso comenta-las de cara, mas passei lá perto pra falar a Lilian se, qualquer coisa, ela poderia me ajudar a lavar minhas roupas. Simpática, ela disse que sim, disse que não tinha segredo, essa mania de mulher de descomplicar tudo o que eu homem acho complicado.

E lágrimas. No último dia, na nossa despedida absurdamente curta e repentina, vi Lilian derramando as lágrimas que eu só consegui desprender quando entrei na minha casa, mil horas de viagem depois. Era escuro e era rua, e Lilian simplesmente com seus olhos lacrimejados e eu com a noção de que vivi tão pouco e tão intensamente ao lado dela e que não poderia remediar isso. E, do nada que criamos, senti saudades de tudo. E a abracei e fui abraçado e senti sua despedida e sua presença amiga.

Um presente, a injustiça: mãos e lágrimas para mim, minhas palavras para Lilian.

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Janeiro de 2010
Maceió/AL

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Se

Desafie-me um texto #35
Não me ache bobo. Quero um texto qualquer, sincero apenas.
Desafio apenas para ter a certeza que, dessa vez, é pra mim. (em 17 de Maio, via email)

Se tudo fosse diferente
Se para o ar eu não voasse
Se eu não fui um novo amigo
Se meu encanto me entregasse
Se não tivessem mais enganos
Se ela não corresse atrás
Se os erros me reconheciam
Se perder nunca é demais
Se ter passado inseparável
Se sentimento vai e fica
Se uma vida em comum
Se o desgosto não explica
Se o frio não é ruim
Se o mundo é diamante
Se eu vejo a cor vermelha
Se meu tempo não é antes
Se um copo vai e bate
Se um sobrinho te escolheu
Se em gibis você existe
Se a criança então sou eu
Se tudo vira num segundo
Se eu conheço um ele antigo
Se escrevo textos tortos
Se eu te quero meu amigo
Se eu puder estar errado
Se eu mesmo eu não sou
Se você não está aqui
Se tu vais eu lá estou
Se eu sou tendencioso
Se intenção não existiu
Se agora é madrugada
Se o coração nunca sorriu
Se eu dissesse que te amo
Se eu diria sou robô
Se eu dissesse que este ano
Se eu sozinho cá estou
Se amizade for em frente
Se eu prometo mim inteiro
Se eu vejo que a gente
Se futuro vem primeiro
Se eu já não existisse
Se você não conheceu
Se não tivesse trabalhado
Se desligado já fui eu
Se do hoje faço hora
Se do mundo tento sim
Se só temos o agora
Se não trocar melhor assim

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Disfarces: ela cruz eu bandeira

Desafie-me um Texto #34
“Desafie – me um texto”? Pois bem, eu te desafio um texto: um texto sobre mim. Agora, esse é o momento de escrever e expressar, com toda sinceridade, o que pensa à meu respeito. (…) E é isso, um novo desafio está lançado! Abraços! (às 18:16, dia 16/04)
…quero um texto instigante, vibrante, excitante, apaixonante, animador ou cômico – assustador! Uahahahaha! Mas que não deixe de revelar a sua verdade à meu respeito. Pronto, agora o desafio lançado está completo! Abraços! (às 19:11 do mesmo dia) (nome da desafiadora preservado, via email)

A gente pode culpar os métodos incorretos, não a legitimidade dos sentimentos. Esse negócio de menina se declarar para mim é, na maioria das vezes, um engodo; mas eu procuro ser racional, sento, explico que nada vai rolar porque, no fim da história a feminilidade e seus malogros só me atraem no âmbito das amizades – e olhe lá, porque eu não sou de cochichar confidências, acompanhar ao banheiro ou fazer vezes do melhor amigo gay.

Não pretendo falar de diferentes visões de mundo, porque falar que uma crença é melhor que a outra é estupidez óbvia – cada fé ou ausência de fé no seu lugar, que o coração é livre pra entender daquilo que jamais entende. Mas gosto de gente autêntica. Gente que é autêntica com os próprios erros e pecados, sabe. Todos nós temos pesares, mas assumir para si o que para os outros é falha e contradição só pode ser autenticidade. Sei lá. Percebi repentinamente que você não pode culpar alguém de gostar, porque às vezes se prova do próprio veneno que soltou. E o coração tem caminhos estranhos e a maioria leva para os desencontros.

Nos resta a paciência, porque se um dia você é ilusão, no outro você está desiludido. E precisa ser sortudo para passar algo assim. Eu acho. No fim das contas, agora que ela desencanou, ficaram mesmo a meia dúzia de lembranças de quando nossa amizade era só inocente, e também as lembranças que criamos desde então, baseadas nessa infância de nós. Eu me agarro nessas, porque a amizade continua. O futuro eu não garanto, porque paixão às vezes contra-ataca. Quem garante?

Ela, espero.

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