Janelas

Vieram me perguntar de memória. Respondi “não me lembro” por ser vidro; e a única imagem que me ocorreu foi do ar, quando me acomodei do lado mais frio do ônibus: janelas abertas. A lembrança de olhar pelo transparente e só sentir o transparente, nunca vê-lo. Como ser raio e transformar areia em qualquer outra coisa.

Não confundir com as pequenas e sutis verdades do mundo. Minha vida é enxergar por uma ruína ordinária de subterfúgios.

Posted in Palavras Fortuitas | Tagged , , | 1 Comment

Lençol

A vida de antes era boa dentro do balde: a água quase transbordava. Não me sentia preso, as paredes internas do balde d’água eram nossa segurança. Era até confortável, eu que ao invés de esticar-me sempre preferi me encolher em mim. Em dois, e até quatro, prefiro me dobrar, sei lá. Não sei você, mas nunca gostei do peso de alguém nas minhas costas. Por isso fui feliz na água – eu e ela pesávamos juntos. Mas um dia me puxaram do balde e eu gritei. Em pânico, percebi que a água sangrava de mim para o chão. Berrei, chorei, morri. Fui amarrado em uma ponta, segurado pela outra. Senti a água em mim nesse um último segundo. Então o universo passou a girar em dor e distorção, meu corpo se apertando em fibras reprimidas, cada uma delas sentindo a água nos ser tirada aos cântaros. E me acabou ferido, fim machucado. Fui jogado ao ar e batido contra o vento, cada centímetro branco latejando silenciosamente. Me levaram e me deixaram aqui, tremulando sem peso, continuamente. Eu e o sol; e como é bonito. Beleza irônica que seca a umidade que em mim é saudade de balde, da água que perdi. O sol vai embora com a tarde, eu sei, e um dia voltarei para sangrar lágrimas de novo. Mas enquanto eu não seco, continuarei aqui, sendo assim… Solidão retorcida.

Posted in Composições Escritas | Tagged , , , , | 1 Comment

Não tive

Acordar ao seu lado debaixo das flores. Tirar com o dedo o pouco de café no canto da sua boca. Ver você se despindo de você em roupas. Colocar meus dedos entre seus cabelos para perdê-los, puxar seu cabelo com força para então encontrá-los. Sentir saudade da sua modéstia vaga quando te abraço e falo de um tudo. Saber pelo sabor de saber estar envolvido. Envolver-se com suas roupas cobrindo meu corpo. Ir ao quarto e falar de roupas, mesmo sem roupa. Fazer cabana com as cobertas. Depois, dividir um cigarro com a janela aberta. Dormir ao seu lado por cima das flores. O contato da sua boca, a petulância das suas sobrancelhas vestindo seu olhar em mim. Rolar no chão enquanto não prestamos atenção no filme. Fingir que existe um sofá vermelho pra gente se sentar. Ver seu sorriso de negação ao me ouvir falando que você é popular como não sonho ser. Pegar seu sorriso e guardar no bolso. Apagar a luz pra deixar o que está no bolso me iluminar. Fechar a janela, ficar sem luz. Acender luz branca pra te ver sonhar. Te ver de olhos fechados, tirar sua camiseta. Segurar a barra da sua calça. Segurar a sua barra. Por fim, barrar seu sentimento em um lugar seguro. Ouvir sua voz no meu ouvido só pra dizer que nunca tinha te ouvido. Autenticar meus arrepios ao ser tocado no pescoço. Fazer o mesmo em cima da sua camisa. Desabotoar sua camisa. Não dormir não acordar ao seu lado, estar com você entre as flores.

Destive.

Posted in Devaneios Deliberados | Tagged | 5 Comments

Sofrer, Fumar, Amar

Cigarro: estúpido prazer. Eu fumo para comer fumaça e fico admirado com o fogo consumindo o tabaco e todas as vinte mil substâncias tóxicas. Tudo bem. Puxo tudo isso para os pulmões, trago e divido minha vida em ducentésimas frações de fim. Não, nunca me apaixonei por um cigarro, mas ali encontrei a analogia perfeita para nós.

Você: prazer estúpido. Eu te desejo para possuir seu corpo e fico admirado com meu fogo consumindo em sentimento todos os vinte mil motivos que me fazem querer você. Tudo bem. Puxo tudo isso para a vida, suspiro e divido nossa história em ducentésimas frações de fim. Eu me apaixonei por você, de verdade, mas encontra-se muita coisa no chão do mundo. Maços de cigarro, inclusive.

Para pessoas como nós, amar é fumar. Você cresce aprendendo que é errado e depois percebe que só poderá fazê-lo, amar ou fumar, em lugares preestabelecidos – e sem o consentimento dos diferentes. Eu conheci os cigarros com quinze anos, mas me apaixonei por você ontem. Ambas ações desaprovadas, ainda que eu abra mão do cigarro pra tragar sua presença – e, mesmo assim, dentro das nossas proibições, meu maior medo é o de morrer sozinho. De câncer.

Viajei quilômetros para acordar do seu lado, e, depois de qualquer prazer realizado, não desejei cigarros para me acalmar. Queria me segurar em você e não te soltar, e deixar futura saudade se esvair como fluido de isqueiro. Mas você vira o corpo e diz “é melhor acabar aos poucos”, e minha esperança de que você esteja falando de saudade futura é apenas bituca de cigarro apagado. Mesmo não fumando, você desfaz em cinzas nosso passado de resíduos.

Pra não falar da estupidez de uma desilusão e de um cigarro, digo que qualquer atitude relacionada não é um atentado à vida. Culpe a inconsequência dos atos, a aderência da vida. O fim de um cigarro banaliza minha saúde, mas o fim do nosso não banaliza você. Ainda que, sofregamente, eu guarde a semelhança cruel entre este cigarro e a minha ilusão: prazer estúpido.

Posted in Composições Escritas | Tagged , , , , | 4 Comments