Preso ao Ar
Sinta isso:
Um bebê está brincando tranquilamente com seu dinossauro de pelúcia, criatura verde do tamanho da cabeça dele; o bebê está feliz e rindo e todo cheio de fofura e inocência. Atrás dele há um guarda-roupa enorme, equilibrado em pés de madeira, que não resistem ao peso e se quebram. O móvel vai cair em cima da criança e ninguém pode salvá-la. Ele tomba, crescente peso e velocidade, a criança olha pra cima.
Pare. Sentiu?
Então.
Hoje vendi cinco livros a um sebo. Não são livros importantes para mim, não mesmo, são de um estilo que eu não gosto e estavam encalhados aqui em casa sem ninguém para lê-los: desserviço. Alguém fará melhor proveito deles, tenho certeza. E eu não sei exatamente dizer como, mas há uma espécie de perda nisso, mesmo eu sabendo de que livros mais novos e necessários virão – mais parece que estou cortando as unhas.
Eu sei que não preciso saber quais são os sete hábitos das pessoas altamente eficazes ou quem são os vampiros da meia-noite, porque lista de atitudes corretas e histórias de terror eu as encontro em casa, muito obrigado. Ainda assim. Senti o guarda-roupa da criança suspenso sobre minha cabeça, enquanto eu, desprevenido, cortava a unha do dedão do pé; aí o dono do sebo disse o preço e eu falei “tudo bem”.
Agora estou aqui olhando o guarda-roupa estático no ar e a criança está olhando pra cima sem saber se vai ser esmagada e você está olhando pra mim sem saber se eu me arrependi da venda ou não.
* * *
Sentir pelo enlevo de sentir não é só um meio – é o meu propósito.

