Pelvini

o avesso do verso desconexo

Preso ao Ar

Sinta isso:

Um bebê está brincando tranquilamente com seu dinossauro de pelúcia, criatura verde do tamanho da cabeça dele; o bebê está feliz e rindo e todo cheio de fofura e inocência. Atrás dele há um guarda-roupa enorme, equilibrado em pés de madeira, que não resistem ao peso e se quebram. O móvel vai cair em cima da criança e ninguém pode salvá-la. Ele tomba, crescente peso e velocidade, a criança olha pra cima.

Pare.  Sentiu?

Então.

Hoje vendi cinco livros a um sebo. Não são livros importantes para mim, não mesmo, são de um estilo que eu não gosto e estavam encalhados aqui em casa sem ninguém para lê-los: desserviço. Alguém fará melhor proveito deles, tenho certeza. E eu não sei exatamente dizer como, mas há uma espécie de perda nisso, mesmo eu sabendo de que livros mais novos e necessários virão – mais parece que estou cortando as unhas.

Eu sei que não preciso saber quais são os sete hábitos das pessoas altamente eficazes ou quem são os vampiros da meia-noite, porque lista de atitudes corretas e histórias de terror eu as encontro em casa, muito obrigado. Ainda assim. Senti o guarda-roupa da criança suspenso sobre minha cabeça, enquanto eu, desprevenido, cortava a unha do dedão do pé; aí o dono do sebo disse o preço e eu falei “tudo bem”.

Agora estou aqui olhando o guarda-roupa estático no ar e a criança está olhando pra cima sem saber se vai ser esmagada e você está olhando pra mim sem saber se eu me arrependi da venda ou não.

* * *

Sentir pelo enlevo de sentir não é só um meio – é o meu propósito.

Meu Nome

Sempre me assusto quando meu celular toca. Lembraram de mim, penso. Realmente lembraram de mim.

É porque não me chamo solidão, ainda que pareça um sinônimo dela. Na análise morfólogica, sou só um adjetivo substituível da vida alheia. Isso assusta, ainda que felicita.

Lembraram de mim, penso, o coração encolhido de susto e pulando de alegria.

- Alô. Foi engano?

Justo.

Onde Vivem os Monstros, de Spike Jonze

Foi de inusitado: estive em Santos nesse feriado e, diferente de São Bernardo do Campo, lá estava passando Onde Vivem os Monstros. Já havia desencanado de ver o filme no cinema – primeiro por não querer mais, segundo por não estar mais afim – mas achei que, dentre os outros filmes em cartaz, este valeria um texto.

O que é interessante. Quando eu descobri que gostava de escrever, pensar que qualquer coisa que acontecesse poderia render umas palavras me servia de consolo e alternativa. E, quando eu era mais criança, trancar-me no quarto e fazer cabana de cobertores para inventar mil aventuras também servia de fuga – e, por que não, espelho – da realidade rebelde.

Identificação pura! Max, o menino protagonista de Onde Vivem os Monstros, após aprontar com a irmã e morder a mãe quando levava uma coça, foge de casa e vai para uma ilha onde encontra um grupo de monstros. As criaturas, feias mas bonitas (tal qual seres humanos), são utilizadas como a personificação inventada para as pessoas que rodeiam Max e para o próprio Max.

Tal reflexo da realidade é trabalhado com obviedade por Jonze – o que, a despeito das crianças com menos de 10 anos, subestima e cansa um pouco. Ao mesmo tempo, o diretor capta com precisão e peculiaridade cada epifania de Max (a cena que abre o filme é memorável), seja ele se sentindo bem embaixo de um montinho de monstros ou observando sua família enquanto reflete sobre o fim do mundo. Tal trunfo de Jonze é dividido com Max Records, garoto ator cuja atuação é encantadora – bastante, mesmo – e é um dos pontos máximos da película.

E a trilha sonora, assinada em quatro mãos, duas delas de Karen O. do The Yeah Yeah Yeahs, completa o mundo infantil visto, vivido e criado por Max: apostando na voz fina e em letras então infantis – de fato, até o próprio Max está eventualmente cantando – Karen O. acerta em cheio ao completar tudo com uma sonoridade muito simples, alcançada por violões e melodias esperançosas. É de abraçar o coração, tal como o livro infantil que originou o filme.

Maurice Sendak, o autor do tal livro – famoso e homônimo –, assinou roteiro e produção. É importante ressaltar essa informação, por meras questões de adaptação. O filme utiliza o livro apenas como acessório, pegando os personagens e poucas situações e criando uma história nova com muitos detalhes novos – algo compreensível, visto que o livro você lê em cinco minutos. Portanto, a relação livro-filme é apenas imagética:  vai da fantasia de monstro do Max à aparência de Carol, KW, Douglas, Ira, Judith e companhia. Todo resto é inventado.

O jantar e a felicidade estão lá, quentinhos, esperando por todos no fim – alguns podem duvidar e subestimar, mas Onde Vivem os Monstros é, sim, um filme para crianças – ainda que eu não me importaria de ver Max, após perceber o “não sou mal, apenas não sei o que faço”, voltar pra casa e, sem condescendência, dizer que aprendeu a pedir desculpas.

Mas, olha só: onde vivem os tais monstros além de dentro de maiores erros e de eventuais acertos? Depois de deixar sua história ir para o cinema, Maurice Sendak que o diga.

Junior

Um Fim

Ele se despediu de mim de modo frio, apático. E, mesmo que eu tentasse – e eu tentei, uma vez só –, ele não quis me abraçar, apenas virou as costas, acenou sem graça.

Disse “tchau”.

Os Meios

“Você não conversa muito por aqui, conversa?”. Ele abanou a cabeça com veemência. “E seus pais?”. Ele deu de ombros, “trabalham”, “e você?”. Ele se levantou, sem graça. “Você precisa entrar, não é, tio?”. “A gente pode ficar conversando, se você quiser”, mas ele já estava subindo na bicicleta enferrujada.

E lá se foi Junior, pedalando molemente a tal bicicleta que não era sua. Desviando dos buracos da rua. A postura cansada por debaixo de uma camiseta de time, rasgada. Ainda assim, uma determinação muda que não o faz olhar pra trás.

Junior aprendeu a dar as costas muito cedo. Chorei bastante, e ainda o faço, quando digo isso pra mim mesmo. Eu tenho saudades do Júnior. Diariamente. Mas não é a saudade que dói, não. Dói é saber que a vida ensinou a ele que é muito fácil esquecer; porque é o que você faz quando não tem chances: você abstrai.

O Princípio

Tem as mãos quentinhas, o Junior. Sua voz é tão tênue, aquele timbre infantil que ainda não se define masculino ou feminino. A gente se conheceu meio que sem querer – tenho orgulho de dizer que fui o primeiro a enxerga-lo – quando eu estava cansado no fim do dia e me sentei na calçada pra observar tudo.

“Vocês são do Rondon, é?”

Sua voz medrosa chegou até mim, sua expressão desconfiada veio depois, e ele sorriu quando eu acenei com a cabeça que sim. Deixou no chão a bicicleta com que fazia fretes e se sentou ao meu lado. “E vocês vão ficar quanto tempo? Vocês vieram de onde? Vão fazer o que? Você sabe andar de bicicleta? Você não faz a barba não, tio?”

O descomeço

“Ei! Ei! Junior! Me espera!”

Ele parou a bicicleta e eu corri pra alcança-lo. E por mais que eu tenha ido com ele até sua casa, por mais que tenha conhecido sua família, papeado com seu pai, por mais que eu tenha Junior sentado atrás da bicicleta, rindo… Eu também tenho sua despedida raivosa e a minha incapacidade de abraça-lo de um jeito mais quente.

*

“Vocês são do Rondon, é?”

Nem conversamos dois minutos quando Junior segurou minha mão. Ele a apertou, brincou um pouco com ela, comparou com as suas, os olhos com um brilho tão distante, ainda que tão sincero. Conversamos tanto ali, Junior e eu, em mais completo diálogo com o silêncio.

Eu fiz um afago na cabeça do menino, os olhos desviando-se dos calos na palma da mão dele. Ele olhou pra mim, cheio de amizade, e eu sorri de volta, abraçando-o como faria se tivesse um filho.

*

*

Capela/AL, Janeiro de 2010

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