Cigarro: estúpido prazer. Eu fumo para comer fumaça e fico admirado com o fogo consumindo o tabaco e todas as vinte mil substâncias tóxicas. Tudo bem. Puxo tudo isso para os pulmões, trago e divido minha vida em ducentésimas frações de fim. Não, nunca me apaixonei por um cigarro, mas ali encontrei a analogia perfeita para nós.
Você: prazer estúpido. Eu te desejo para possuir seu corpo e fico admirado com meu fogo consumindo em sentimento todos os vinte mil motivos que me fazem querer você. Tudo bem. Puxo tudo isso para a vida, suspiro e divido nossa história em ducentésimas frações de fim. Eu me apaixonei por você, de verdade, mas encontra-se muita coisa no chão do mundo. Maços de cigarro, inclusive.
Para pessoas como nós, amar é fumar. Você cresce aprendendo que é errado e depois percebe que só poderá fazê-lo, amar ou fumar, em lugares preestabelecidos – e sem o consentimento dos diferentes. Eu conheci os cigarros com quinze anos, mas me apaixonei por você ontem. Ambas ações desaprovadas, ainda que eu abra mão do cigarro pra tragar sua presença – e, mesmo assim, dentro das nossas proibições, meu maior medo é o de morrer sozinho. De câncer.
Viajei quilômetros para acordar do seu lado, e, depois de qualquer prazer realizado, não desejei cigarros para me acalmar. Queria me segurar em você e não te soltar, e deixar futura saudade se esvair como fluido de isqueiro. Mas você vira o corpo e diz “é melhor acabar aos poucos”, e minha esperança de que você esteja falando de saudade futura é apenas bituca de cigarro apagado. Mesmo não fumando, você desfaz em cinzas nosso passado de resíduos.
Pra não falar da estupidez de uma desilusão e de um cigarro, digo que qualquer atitude relacionada não é um atentado à vida. Culpe a inconsequência dos atos, a aderência da vida. O fim de um cigarro banaliza minha saúde, mas o fim do nosso não banaliza você. Ainda que, sofregamente, eu guarde a semelhança cruel entre este cigarro e a minha ilusão: prazer estúpido.