
Foi de inusitado: estive em Santos nesse feriado e, diferente de São Bernardo do Campo, lá estava passando Onde Vivem os Monstros. Já havia desencanado de ver o filme no cinema – primeiro por não querer mais, segundo por não estar mais afim – mas achei que, dentre os outros filmes em cartaz, este valeria um texto.
O que é interessante. Quando eu descobri que gostava de escrever, pensar que qualquer coisa que acontecesse poderia render umas palavras me servia de consolo e alternativa. E, quando eu era mais criança, trancar-me no quarto e fazer cabana de cobertores para inventar mil aventuras também servia de fuga – e, por que não, espelho – da realidade rebelde.
Identificação pura! Max, o menino protagonista de Onde Vivem os Monstros, após aprontar com a irmã e morder a mãe quando levava uma coça, foge de casa e vai para uma ilha onde encontra um grupo de monstros. As criaturas, feias mas bonitas (tal qual seres humanos), são utilizadas como a personificação inventada para as pessoas que rodeiam Max e para o próprio Max.
Tal reflexo da realidade é trabalhado com obviedade por Jonze – o que, a despeito das crianças com menos de 10 anos, subestima e cansa um pouco. Ao mesmo tempo, o diretor capta com precisão e peculiaridade cada epifania de Max (a cena que abre o filme é memorável), seja ele se sentindo bem embaixo de um montinho de monstros ou observando sua família enquanto reflete sobre o fim do mundo. Tal trunfo de Jonze é dividido com Max Records, garoto ator cuja atuação é encantadora – bastante, mesmo – e é um dos pontos máximos da película.
E a trilha sonora, assinada em quatro mãos, duas delas de Karen O. do The Yeah Yeah Yeahs, completa o mundo infantil visto, vivido e criado por Max: apostando na voz fina e em letras então infantis – de fato, até o próprio Max está eventualmente cantando – Karen O. acerta em cheio ao completar tudo com uma sonoridade muito simples, alcançada por violões e melodias esperançosas. É de abraçar o coração, tal como o livro infantil que originou o filme.
Maurice Sendak, o autor do tal livro – famoso e homônimo –, assinou roteiro e produção. É importante ressaltar essa informação, por meras questões de adaptação. O filme utiliza o livro apenas como acessório, pegando os personagens e poucas situações e criando uma história nova com muitos detalhes novos – algo compreensível, visto que o livro você lê em cinco minutos. Portanto, a relação livro-filme é apenas imagética: vai da fantasia de monstro do Max à aparência de Carol, KW, Douglas, Ira, Judith e companhia. Todo resto é inventado.
O jantar e a felicidade estão lá, quentinhos, esperando por todos no fim – alguns podem duvidar e subestimar, mas Onde Vivem os Monstros é, sim, um filme para crianças – ainda que eu não me importaria de ver Max, após perceber o “não sou mal, apenas não sei o que faço”, voltar pra casa e, sem condescendência, dizer que aprendeu a pedir desculpas.
Mas, olha só: onde vivem os tais monstros além de dentro de maiores erros e de eventuais acertos? Depois de deixar sua história ir para o cinema, Maurice Sendak que o diga.








em nenhum aspecto o philme me pareceu inphantil, aliás todos os personagens (os monstros) carregam um potencial de complexidade bastante elevado.
Para mim já é um dos melhores philmes vistos nesse ano de 2010.
ih, não achei nem um pouco complexo…
mas o filme é, e isso não é falta de mérito, infantil – ainda que também fale com os adultos.
Concordo com o anônimo aí, Rafa…
O filme é bastante denso, e as únicas crianças na sala de exibição saíram com meia hora de filme porque não estavam entendendo nada.
É um filme *sobre* uma criança, mas não é um filme infantil.
não sei, ju, havia crianças na minha sala que assistiram até o fim…
Você tem mesmo certeza de que não é um jornalista? Só pra conferir.