Junior

Um Fim

Ele se despediu de mim de modo frio, apático. E, mesmo que eu tentasse – e eu tentei, uma vez só –, ele não quis me abraçar, apenas virou as costas, acenou sem graça.

Disse “tchau”.

Os Meios

“Você não conversa muito por aqui, conversa?”. Ele abanou a cabeça com veemência. “E seus pais?”. Ele deu de ombros, “trabalham”, “e você?”. Ele se levantou, sem graça. “Você precisa entrar, não é, tio?”. “A gente pode ficar conversando, se você quiser”, mas ele já estava subindo na bicicleta enferrujada.

E lá se foi Junior, pedalando molemente a tal bicicleta que não era sua. Desviando dos buracos da rua. A postura cansada por debaixo de uma camiseta de time, rasgada. Ainda assim, uma determinação muda que não o faz olhar pra trás.

Junior aprendeu a dar as costas muito cedo. Chorei bastante, e ainda o faço, quando digo isso pra mim mesmo. Eu tenho saudades do Júnior. Diariamente. Mas não é a saudade que dói, não. Dói é saber que a vida ensinou a ele que é muito fácil esquecer; porque é o que você faz quando não tem chances: você abstrai.

O Princípio

Tem as mãos quentinhas, o Junior. Sua voz é tão tênue, aquele timbre infantil que ainda não se define masculino ou feminino. A gente se conheceu meio que sem querer – tenho orgulho de dizer que fui o primeiro a enxerga-lo – quando eu estava cansado no fim do dia e me sentei na calçada pra observar tudo.

“Vocês são do Rondon, é?”

Sua voz medrosa chegou até mim, sua expressão desconfiada veio depois, e ele sorriu quando eu acenei com a cabeça que sim. Deixou no chão a bicicleta com que fazia fretes e se sentou ao meu lado. “E vocês vão ficar quanto tempo? Vocês vieram de onde? Vão fazer o que? Você sabe andar de bicicleta? Você não faz a barba não, tio?”

O descomeço

“Ei! Ei! Junior! Me espera!”

Ele parou a bicicleta e eu corri pra alcança-lo. E por mais que eu tenha ido com ele até sua casa, por mais que tenha conhecido sua família, papeado com seu pai, por mais que eu tenha Junior sentado atrás da bicicleta, rindo… Eu também tenho sua despedida raivosa e a minha incapacidade de abraça-lo de um jeito mais quente.

*

“Vocês são do Rondon, é?”

Nem conversamos dois minutos quando Junior segurou minha mão. Ele a apertou, brincou um pouco com ela, comparou com as suas, os olhos com um brilho tão distante, ainda que tão sincero. Conversamos tanto ali, Junior e eu, em mais completo diálogo com o silêncio.

Eu fiz um afago na cabeça do menino, os olhos desviando-se dos calos na palma da mão dele. Ele olhou pra mim, cheio de amizade, e eu sorri de volta, abraçando-o como faria se tivesse um filho.

*

*

Capela/AL, Janeiro de 2010

About Pelvini

Dizem por aí que é só nuvem. Mas tem email: contato@pelvini.com.
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3 Responses to Junior

  1. Michelle says:

    Muitas pessoas aprendem a dar as costas muito cedo. Ás vezes, parece menos doloroso…

    [Reply]

  2. Lilian says:

    Grande Allef Junior, um garotinho pra lá de especial!!

    [Reply]

  3. Fernando Fraioli says:

    a experiência toda deve ter sido incrível…
    ainda tenho muito que ler aqui!

    [Reply]

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