Do outro lado

Lá está ele, sentado do outro lado da sala – o outro ponteiro do relógio. E aqui está você, esperando que ele olhe na sua direção e repare que você existe. A sorte coloca qualquer outro rapaz no seu caminho, claro, porque a vida não é exatamente legal contigo quando o assunto é Dois. Ela não liga muito para seus interesses, você diz pra si, é muito esquecida.

Mas, como bem disseram, cuidado com o que você deseja – a vida também é sarcástica e fajuta. Acontece que no fim das contas o rapaz do outro lado do espelho se levanta, e vem. Você pergunta o nome dele. Ele responde e, alguns segundos depois, o olhar culpado por sua displicência, pergunta o mesmo pra você. E você responde, sentindo-se a mais imbecil criatura por ver esperança nisso.

O que você está sentindo não é o sentimento – é aquilo que o precede. É o seu desejo de sentir tudo isso de que você teve prévia. É o seu desejo de ser o possível para que o outro veja em você o necessário. Sem que haja dor alguma pra isso… Sem que haja tanta espera. Porque o sentimento que precede o sentimento é esse mesmo, já que pensei a respeito: espera.

Você espera.

E, assim, nunca se apaixona. Ainda que, vamos concordar, tenha todo o potencial pra isso. E a sua hora ainda vai chegar – metáfora besta, eu sei, mas você só tem o ponteiro que conta as horas, por isso o tempo parece tão longo – e, da próxima vez que o rapaz do outro lado da sala se levantar, ele vai andar na sua direção.

Não se empolgue: assim como você, eu também sou imbecil e acredito na esperança.

About Pelvini

Dizem por aí que é só nuvem. Mas tem email: contato@pelvini.com.
This entry was posted in Devaneios Deliberados and tagged , , , . Bookmark the permalink.

2 Responses to Do outro lado

  1. Rebeca says:

    hm, eu queria ter escrito esse texto.
    teria surgido enquanto eu escutava Kings (como não poderia deixar de ser :~) e com rabiscos na borda da folha.

    [Reply]

  2. Juliana says:

    É incrível como a expectativa é a grande força motriz do ser humano. Muitos diriam que é o orgulho ou o egoísmo, mas eu acredito que seja a expectativa. Sabe, as horas, os minutos, os segundos que antecedem um primeiro beijo, uma viagem, uma festa, um show da sua vida…? É isso que nos move.

    Sofro disso abertamente. Nada é tão triste quando o final de uma festa.

    Acho que porque o antes está cheio de possibilidades, enquanto o depois é só recordações…

    [Reply]

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>