Dois garotos correndo embaixo do viaduto, eu os vejo, um de touca puída sobre os cabelos crespos e o outro de moletom rasgado nas costas; a senhora ao meu lado diria que eles são mendigos, eu arriscaria chamá-los de artistas. Rodeados por nossos julgamentos, distantes de nossas opiniões, os garotos correm pela rua que passa por baixo da estrada. Eles não riem nem choram nem gritam: apenas correm.
O garoto de touca tira um objeto do bolso, o outro garoto faz o mesmo, param em frente a parede, encaram-se, rabiscam. Longe de mim e ao alcance das minhas mãos – exata distância entre uma estrela e eu -, eles escrevem na parede embaixo do viaduto. De onde estou posso mensurar o tamanho dos dois com o polegar e o indicador. O que eles escreveram – ou depredaram, aos olhos da senhora ao meu lado –, porém, vai além de medições.
Mais tarde fui até lá conferir e fotografar. A frase, um susto, parecia expurgar fantasmas. Pra escrever coisa desse tipo, pensei, não precisava apenas ser pobre. Não precisava – apenas – ser revoltado ou humilhado. Eu sei: situações assim também motivam a arte.
Mas frases como essa só escreve quem tem coração de poeta.









Pelo dicionário, catarse pode ser sublimação de uma demanda reprimida ou o ato de defecar. Sugestivo.
SAI DAI SE VAI MORRE
Fiquei querendo saber – desculpe a cretina objetividade da pergunta:
Sonhos de quem?
não sei, edd. mas os meus ninguém assassina.
abraço (: