Poetas Urbanos

Dois garotos correndo embaixo do viaduto, eu os vejo, um de touca puída sobre os cabelos crespos e o outro de moletom rasgado nas costas; a senhora ao meu lado diria que eles são mendigos, eu arriscaria chamá-los de artistas. Rodeados por nossos julgamentos, distantes de nossas opiniões, os garotos correm pela rua que passa por baixo da estrada. Eles não riem nem choram nem gritam: apenas correm.

O garoto de touca tira um objeto do bolso, o outro garoto faz o mesmo, param em frente a parede, encaram-se, rabiscam. Longe de mim e ao alcance das minhas mãos – exata distância entre uma estrela e eu -, eles escrevem na parede embaixo do viaduto. De onde estou posso mensurar o tamanho dos dois com o polegar e o indicador. O que eles escreveram – ou depredaram, aos olhos da senhora ao meu lado –, porém, vai além de medições.

Mais tarde fui até lá conferir e fotografar. A frase, um susto, parecia expurgar fantasmas. Pra escrever coisa desse tipo, pensei, não precisava apenas ser pobre. Não precisava – apenas – ser revoltado ou humilhado. Eu sei: situações assim também motivam a arte.

Mas frases como essa só escreve quem tem coração de poeta.

About Pelvini

Dizem por aí que é só nuvem. Mas tem email: contato@pelvini.com.
This entry was posted in Cotidiano Revivido and tagged , , , , . Bookmark the permalink.

4 Responses to Poetas Urbanos

  1. Pelo dicionário, catarse pode ser sublimação de uma demanda reprimida ou o ato de defecar. Sugestivo.

  2. SAI DAI SE VAI MORRE

  3. edd says:

    Fiquei querendo saber – desculpe a cretina objetividade da pergunta:

    Sonhos de quem?

  4. pelvini says:

    não sei, edd. mas os meus ninguém assassina.

    abraço (:

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>