Metafísica da Pessoalidade

Desafie-me um Texto #23
Essa semana na aula de piano fiquei super feliz, a professora pegou músicas do segundo ano pra eu tirar xerox e começar a treinar. Tudo bem que ainda não completei um ano de piano clássico, mas vamos que vamos. O Meu Desafio, não sei se é realmente um desses super desafios, mas aqui vai:

Desafio-te a escrever o que sentiu ao ouvir cada Bachiana de Villa-Lobos. Não lembro de já ter lido algum comentário teu sobre música clássica então te forço a fazê-lo. Diga o que te fez lembrar ao ouvir cada uma, um cheiro da infância ou uma sensação futura, escreva essas sensações e indique um pouco de música erudita ao teu público, por que não?! (Dáina G. Silva)

Sou um fã quebrado de música clássica: conheço muito menos do que gostaria, ainda que já estivesse familiarizado com a obra magnífica de Heitor Villa-Lobos – por sorte, e sobretudo, com as Bachianas. Infelizmente, as Bachianas de Villa-Lobos não me evocam nenhuma memória pessoal.

O texto a seguir, no entanto, foi gerado enquanto eu ouvia – no repeat – a Bachiana Brasileira Nº 9 (Prelúdio: Vagarosa e místico – Fuga: Poco apressando – Tempo I – Grandioso).Você pode ouvir a composição se fizer o download dela clicando aqui.

Só uma pequena reflexão, dessas que resultam de um suspiro seco e silencioso de susto; é uma pseudossinfonia, orquestrada por reconhecimentos possivelmente tardios e insinceros, desses que eu tive em vida. São poucos parágrafos sobre o que reconhecem duas pessoas distintas, a primeira pessoa certamente apaixonada e a segunda pessoa apenas uma sombra na plateia – dessas que você vê de relance quando está no palco. Sei como é isso, mas não porque fui regente de orquestra, e sim porque a primeira pessoa foi e me contou como é. Então não se pode esperar por uma obra imparcial, até mesmo porque eu mesmo tomei um lado ao decidir escrever. Posso ser impessoal, mas sei bem no que acredito.

Lá, um suspiro. A segunda pessoa foi avistada pela primeira, sendo que uma das duas não estava ciente disso – e é claro que é a primeira, ela que viu. Explico: a segunda pessoa é mais vista e assediada do que a primeira e sempre sabe que é vista. Só a primeira pessoa, iludida e fantasiosa, não está ciente disso, afinal de contas precisa acreditar na sua possibilidade de ser única. Fora que ela não consegue se ver vendo. É uma possibilidade que, convenhamos, eu não vejo existir. Desculpe, agora não me referia sobre ver-se, mas sobre essas esperanças de dois. Essas existem. Eu mesmo torço para que que a primeira pessoa, singular, se encontre no fim do seu texto com a segunda pessoa, e que ambas possam ser plural. Mas veja: eu não aprendi como conjugar verbos enquanto terceira pessoa. Tenho o péssimo costume de me protagonizar.

Mas foi do suspiro assustado que surgiu a esperança da primeira pessoa que, dias depois, foi perguntar para um amigo o que ele achava da segunda pessoa. Certamente que ouviu algum tipo de incentivo, ou talvez precisaríamos terminar essa história aqui. Eu esqueci de dizer que a primeira pessoa era facilmente incentivada por palavras amigáveis, e gostava de acreditar em verdades geralmente inventadas por ela. Isso, com certeza, confundia a realidade verdadeira. Pra piorar, coloque na partitura o momento em que a segunda pessoa fez confundir a primeira pessoa com dois olhares – só dois, jura a primeira pessoa –, dois olhares de reconhecimento.

Quem inventou o olhar mútuo era louco e era doente; ambas as coisas são ruins de alguma forma, ainda que, pensando com irônico otimismo, possam trazer aprendizados irreversíveis. E o que dizer de dois olhares mútuos, cada um com apenas um segundo cada? Eu digo que encaro isso com alguma gravidade, não posso mentir: é louco e doentio acreditar que tanta coisa pode ser vista e enxergada e reconhecida no resultado de dois olhares em dois segundos.

E eu não estou tentando injetar emoção em você, estranho ou estranha, pessoa cuja existência é um fio, já que quarta pessoa só conjuga um verbo, “eu observo”, na primeira impessoa do singular. Você que observa a terceira pessoa, eu, falando sobre a segunda e a primeira pessoas observando-se e reconhecendo-se, você não deve e talvez nem possa se emocionar. Sabe por quê? Ora, o novo suspiro seco veio da primeira pessoa, não de você. Ou de mim. E a primeira pessoa já tinha visto e suspirado uma vez antes. Só que da segunda pessoa veio, juram, curiosidade. E aqui você, quarta pessoa, entra também, porque observar é um ato de ser curioso. Pode se emocionar: juram que sim.

E ser olhada com curiosidade bastava para a primeira pessoa. Subindo as escadas, ela podia ouvir os violinos que emanavam suspense e que lhe escondiam e premeditavam uma armadilha feliz. Ser vista com curiosidade, para a primeira pessoa, já bastava para inventar um contato inexistente no futuro mais-que-perfeito (eu dissera que a primeira pessoa gostava de acreditar em verdades inventadas, e não estava mentindo).

Pobre primeira pessoa: a imagem que passei dela, de apaixonada obsessiva, é tão palpável. Ainda que injusta, eu diria, pois seguir a segunda pessoa – de longe –, coisa que um dia fizera, para saber onde a outra estava indo, é muito mais um ato de desespero que de obsessão. Talvez dos dois. Eu com certeza afirmaria, no entanto, que a primeira pessoa foi movida por paixão criada. É o tipo de bobeira que os inventores adoram fazer.

E é assim que termina essa pseudossinfonia sobre reconhecimentos julgáveis feita por personagens conjugáveis. Termina sem fim mesmo, já que certos olhares mútuos duram o infinito. E também a memória da boa música é mágica eterna para o silêncio. De qualquer forma eu não escrevi para contar uma história de encontros. Escrevi sobre reconhecimentos, e, meu Deus, desgastei pessoas demais, inclusive a mim, para falar disso. Maldita metafísica da pessoalidade, tão impessoal. Parece eu, que nem em mim acredito.

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Dizem por aí que é só nuvem. Mas tem email: contato@pelvini.com.
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2 Responses to Metafísica da Pessoalidade

  1. Rafael Lotério Flomhaff says:

    Sua metafísica me parece extremamente familiar; como sempre, um texto belíssimo.

  2. Dáina says:

    puxa, eu li o texto logo q vc postou e esqueci de comentar, q feio pra mim !!!

    aki vai o meu comentário
    rafa, incrível !!!

    um super beijo !

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