Desafie-me um texto #14
(…)
Quanto ao desafio, adorável a proposta.
Vá lá: consegue reproduzir patativamente o processo de favelização urbana?
(Carlos Pegurski, do Cocotidiano)Patativa do Assaré é (“é”, porque ele continua vivo através das palavras) a alcunha de Antônio Gonçalves da Silva, um genial escritor sertanejo nascido no sul do Ceará e que, claro, morava na cidade de Assaré. Mestre da poesia dita popular, dizia que pra ser poeta não é preciso ser professor: “Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão”.
Ouça enquanto lê! Música de fundo: “Chinatown”, do Do Make Say Think.
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Moça rica aí do prédio
Se a TV é o seu tédio
Olhe aqui pro mundo médio
E me fale por favor
Se sua vida tá dureza
Se na minha vê beleza
Se no morro há certeza
De uma vida com bom valor
Sei que sou só um menino
De chinelo, sem destino
Que enfrenta o sol à pino
Pra tentar chegar na escola
Sei que você vai de carro
Vida boa que me amarro
Só que eu sofro do escarro
Da sociedade e da cola
Meus pais fugiram do agreste
Pra escapar da fome, essa peste
que a pobreza do nordeste
Causa em qualquer multidão
Se abrigaram num barraco
Juntaram roupas, uns cacos
Mas se faz frio, não há casaco
Que aqueça o coração
Menina, vou falar da favela
Essa verdade pouco bela
Que é paisagem da sua janela
Esse mundo aí que ‘cê não conhece
A violência desce a rua
E a minha realidade, crua
Não pega gente que nem a sua
Nessa cidade que só cresce
Viver aqui não é difícil.
Se aqui foi seu início
Não existe precipício
que a classe boa jura ver
Aqui tem luz, água de graça
Uma pelada lá na praça
E às vezes uma desgraça
Pra gente lembrar de viver.
Fácil mesmo é ver o crime
Um neguinho gritando nome de time
Uma criança sem mãe que a mime
Um moleque com uma lata no nariz
Na verdade isso ‘cê vê até lá no centro
Dessa cidade que camufla o tormento
Que vem pra alma de fora pra dentro
E te faz evitar o mendigo que diz:
“Por favor, me dá um trocado”
“Estou sem comer faz um bocado”
“Eu sou só um favelado”
“Cê tem dinheiro pro remédio que me deixa em pé?”
“Compra uma bala, seu moço”
“Já to aqui no fundo poço”
“Não tenho como enforcar meu pescoço”
“Não vou te assaltar, não sou ralé”
A maioria para e imagina
Que ruim é só aqui em cima
Que na favela não tem gente fina
Fina no sentido de ser bacana
Pois tem muito bacana que é pobre
Individuo que a grana não cobre
A indiferença que ele quer que sobre
Pra não notar nossa vida fulana.
A notícia que agora tenho
É que não existe força ou empenho
Que nos tire desse papo ferrenho
De onde começa e termina a favela
Nossa gente tá no centro
Nossa gente tá por dentro
E o processo pode ser lento
Só que não tem choro nem vela.
Com a favela ‘cê não some
Não apaga, nem muda de nome
E nem há distância que se tome
Que nos deixa deixar de existir
E você, moça, que nos nega com desprezo
vê se nos olha dum jeito mais coeso
Que se o povo daqui não morre ou é preso
Daqui eles não vai sair.
Tem favela que o governo fez um muro
Pra deixar a galera no escuro
Dizendo que já que é pobre, é burro…
A gente vota e é segregado
Mas se fizessem nova moradia
Minha mãe jamais aceitaria
Mudar da casa que pra ela mais valia
Pra morar num agregado
Então, moça rica aí do prédio
Se a TV já tá um tédio
Olha aqui pro meu mundo médio
E aceita de uma vez:
Se o burguês não reconhece
Que a favela só cresce
E que a ignorância padece
O problema é menos nosso, o problema é de vocês
O que não é o fim do mundo
É só um pensamento profundo
De que o pobre é oriundo
E que todo mundo tem que entender
A favela não é problema
A favela é o emblema
A favela é um dilema
Que a gente tem que resolver.








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pelvini, lançando audiolivro!!!
gostei mt rafa … um gnd beijo no coração
;)
Hahaha, acho que não chega a tanto.
Mas que bom que gostou (x outro beijo pra você!