Meu primeiro contato com o nazismo foi na velha biblioteca municipal de Mococa. Eles tinham quatro volumes separados que formavam a coleção Quatro Estações, escrita por Stephen King. “Aluno Inteligente” era sobre um garoto que descobria ser vizinho de um ex-comandante nazista. Assim como ao menino, os horrores do nazismo me encantaram: despertada a curiosidade, fui colhendo livros e filmes que tratavam do tema. De Schindler à Menina que Roubava Livros, com a Outra História Americana ou no recente O Leitor (cujo história apenas conheço do livro), na pitada cruel em Elefante do diretor Gus Van Sant ou na emoção arrebatadora do Diário de Anne Frank, o Holocausto tem me fascinado por sua capacidade de me confundir quanto à razão indizível daquilo acontecer; o que nos leva ao título do post em questão.
Baseado no livro homônimo escrito por John Boyne, O Menino do Pijama Listrado foi levado ao cinema em 2008, orquestrado por Mark Herman e produzido por David Heyman (inglês responsável pelos filmes de Harry Potter). Bruno, filho de oito anos de um comandante do alto escalão nazista (interpretado por David Thewlis), está de mudança com ele, a mãe e a irmã para uma casa bem longe de Berlim, onde ele mora e aproveita sua infância até então. Interpretado com pureza por Asa Butterfield – seus olhos azuis, gigantescos, são seu maior trunfo – Bruno tem o sonho de ser explorador quando crescer. E, em uma de suas explorações pelas novas redondezas, faz amizade com um menino que mora do outro lado da cerca eletrificada. O detalhe que assombra Bruno não é este último, nem os dentes podres do recém-conhecido, mas o fato dele estar usando um pijama listrado.
O roteiro é construído a partir do olhar inocente de Bruno, e é acertada a decisão do diretor em mostrar o menino brincando, ou lendo, e deixar de pano de fundo os horrores da guerra e como ele realmente vive a tudo isso com sua ingenuidade (e a cena que abre o filme é um claro do que falo). Está aí o fio condutor da trama; e quem assiste vai conhecendo e entendendo pouco a pouco o que está acontecendo – ainda que, no livro, o suspense é ainda maior, porque vemos tudo aos olhos do menino, coisa que no filme não acontece (o que não é um defeito, apenas um detalhe de montagem). De fato, o roteiro (também assinado por Herman) é exemplar, ainda que o filme mude um pouco a cronologia da obra de John Boyne. Obras de arte completamente diferentes, cinema e literatura devem ser encaradas de formas diferentes, e Herman felizmente entendeu que isso não justifica ferir a obra que originou seu filme. Logo, enquanto no filme vemos e acompanhamos Bruno em suas aventuras, no livro nós somos Bruno. São sensações diferentes entre si, mas igualmente apaixonantes – e, porque não neste caso, perturbadoras.
Salta aos olhos a interpretação precisa de Vera Farmiga como a mãe de Bruno (a cena em que descobre a verdadeira função de seu esposo é magnífica). Sensível ao guiar as interpretações, Herman também mostra como o nazismo opera nas pessoas através de pequenos toques, como a mudança do vestuário de Gretel ao longo do filme. É inevitável que Herman foque aqui e ali na vida de quem mora no campo de concentração do outro lado da cerca, mas as punições que sofrem os próprios nazistas também são um cutucão incômodo: é interessante ver como um subordinado do comandante é punido sem mea culpa. Os únicos aparentemente imutáveis ao nazismo é mesmo o pai de Bruno, comandante da situação, e o próprio Bruno, imaculado por sua incredulidade. Os dois possuem seus próprios castigos; mas a constatação de Bruno é maravilhosa: tendo como melhor amigo um judeu de oito anos aprisionado, Bruno não consegue entender como todos os judeus podem ser vistos apenas e somente como criaturas ruins. Ciente de que entre os alemães que conhece existem os bons e os ruins, Bruno parece entender com a simplicidade que lhe é peculiar, que também deve ser assim com os judeus – que deve ser assim com todo mundo.
O Menino do Pijama Listrado é apenas um filme sobre como um horror tão grande pode povoar e mudar drasticamente uma delicada infância. Apurado em captar a espontaneidade das crianças protagonistas, seja nos olhos grandes de Bruno (Butterfield) ou no sorriso triste de Shmuel (do talentoso Jack Scanlon), Heiman criou uma obra de tristeza amarga – ainda que nunca melodramática. Fala sobre como as crianças são realmente livres de qualquer preconceito quando o assunto é amizade e brincadeira, o que é notável. Com uma montagem bárbara, O Menino do Pijama Listrado ainda conta com a maravilhosa trilha sonora de James Horner, que encontrou o tom certo na singelidade do piano e na carregada orquestração que permeia a película.
Como qualquer filme sobre o assunto, este é carregado de uma dor triste e impiedosa – e, assim como eu aos catorze anos, muitos saíram da sala do cinema abalados com a constatação de que a maioria daqueles horrores realmente aconteceu, que realmente foram verdade. Contemplando a isso, O Menino do Pijama Listrado se torna digno das lágrimas revoltas que pode causar, sem ser injustamente irônico ou fartamente maniqueísta: é um filme tão cruelmente triste quanto a época que está retratando.








Rafael Edwald Filho
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