Dúvida, de John Patrick Shanley

A balança do libriano sempre pende para um dos lados conforme os pesos que você deposita. Isso talvez explique o fato da câmera de John Patrick Shanley por vezes pender e se fixar ora para um lado, ora para outro, durante algumas cenas de seu Dúvida. O filme, indicado à categoria de melhor filme no Oscar, foi baseado na peça de teatro homônima ganhadora do Pulitzer (e a peça realmente rendeu um filme terrivelmente bem construído).

Fazendo jus ao título, Dúvida é um embate entre o padre Flynn e a freira Beauvier (esplendidamente assumidos por Philip Seymour Hoffman e Meryl Streep), partindo da dúvida de Beauvier quando a freira James (interpretada por uma corretíssima Amy Adams) diz desconfiar que o padre esteja abusando de uma criança da igreja – pra piorar único aluno negro do local (e este fato é aqui ressaltado pois o filme se passa no Bronx de 1964, e todos sabemos que a luta contra o racismo é parte vital da história dos EUA, sobretudo nessa época). O roteiro de Dúvida joga o espectador daqui para lá, fazendo com que constantemente mudemos de opinião, que se anseie, cedo ou tarde, por uma acusação simples.

Dúvida tem como pano de fundo o machismo na instituição católica (não à toa, a freira Beauvier insiste em lembrar que, por ser freira, está sempre em desvantagem dentro da igreja, pois sempre precisa se reportar a um bispo – um homem), seja mostrando o contraste das refeições dos padres com a das freiras, seja no tom de liderança assumido do padre Flynn quando está na sala da freira Beauvier, sua subordinada (e é simplesmente de tirar o fôlego a cara que Streep faz quando o personagem do padre se senta na cadeira dela; a expressão da atriz diz muito mais que qualquer palavra do roteiro). O título do filme está aí: é sempre dúbio, uma faca de dois gumes; a certeza da freira Beauvier, a simpatia do padre Flynn, a alternância de ideias da freira James e até mesmo o comportamento do menino corroboram para instaurar a incerteza do que realmente está acontecendo.

Com uma direção de arte bem produzida (perceba o vitral da igreja que retrata um olho a fitar o padre Flynn) e um figurino simples (que provavelmente não foi indicado a Oscar pois os outros filmes chamam bem mais a atenção – como o já imaculado Benjamin Button ou os ofuscantes The Duchess ou Australia), Dúvida ainda é excelente em criar suspense em seus pequenos (porém geniais) toques. Acredite: o soar de um telefone, o barulho de trovoadas ou uma lâmpada quebrando são muito mais eficientes que qualquer trilha sonora incidental – além de soarem pertinentes e complementarem a discussão proposta.

Mas a beleza de Dúvida está mesmo nas atuações (não obstante, todos os atores principais do filme foram indicados ao Oscar). Philip Seymour Hoffman dispensa elogios, já que é um ator tão bom que está no limite do insuportável; do tipo que será constantemente indicado e nem sempre irá ganhar (talvez justa ou injustamente, mas o prêmio “hors concours” para Hoffman é papo para outro texto). Meryl Streep está intensamente apaixonada por seu papel e é de se esperar que as melhores cenas do filme são quando ela se encontra com o personagem de Hoffman. E Amy Adams – uma graça – é o braço necessário, tanto para o roteiro quanto para os outros atores, visto que ela é a personagem que assiste aos fatos e se vê momentaneamente dentro deles, tal como quem está assistindo.

O destaque final – e que também promove a discussão mais calorosa de todo o filme – está na atuação de Viola Davis como a senhora Miller, mãe do garoto que está sob a suspeita de abuso. Em apenas alguns minutos, esta cena demonstra a potência da história, e a personagem mostra uma grande complexidade, que se desdobra perante as lágrimas e o olhar de raiva da atriz. A cena em que ela é confrontada pela personagem de Streep é assustadoramente desconfortante, realmente fazendo pensar que desagradáveis conclusões alguém pode tirar quando o amor de uma mãe é destruído pelo preconceito – e pela dúvida.

Movido por suas discussões polêmicas, soberbo em instaurar a sombra da incerteza sobre qualquer coração, Dúvida segue para um desfecho que consolida toda a coerência com que a película foi conduzida: se a princípio nós colocávamos os pesos dos argumentos para equilibrar a balança da dúvida, no fim das contas descobrimos que mais vale jogar a balança fora.

Os dois lados da balança possuem diversas conjecturas de peso igual, mas não adianta tentar igualá-las. Afinal de contas… São apenas conjecturas. Felizmente, Dúvida reconhece o fato e torna-se, por concepção, um dos filmes mais inteligentes do ano.

Clique aqui e assista no YouTube o trailer de Dúvida.

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