Em Junho de 2000 o Brasil pôde assistir pela televisão o desenrolar das ações de Sandro Nascimento: o rapaz seqüestrara um ônibus e fez seus passageiros como reféns. Quatro horas foram suficientes para ‘chocar’ um país que assiste, diariamente, desgraças pela televisão. Daí partiram as idéis de José Padilha e Bruno Barreto. Padilha produziu o documentário jornalístico Ônibus 174, em 2002, que denunciava a exclusão pela base como uma das culpadas do seqüestro do 174. Seis anos depois e Barreto toma um caminho parecido.
A diferença entre os dois filmes está em fazer ficção em cima de uma história real. Pouca ficção, digamos. Barreto coloca a realidade lá, desde o massacre da Candelária (que Sandro testemunhou), até detalhes do seqüesto como a morte forjada de uma das reféns. O roteirista Bráulio Mantovani (de Cidade de Deus) opta por introduzir um xará para Sandro na história e, utilizando-se de obras excessivas do acaso, desenrola sua história (ilustrando, com pequena alteração, uma frase de Padilha: “quatro milhões de brasileiros acompanharam a trajetória de Sandro pela TV, mas apenas uma – sua mãe adotiva – compareceu ao seu enterro”).
Barreto, diretor do razoável “O Que É Isso Companheiro?”, faz, como Padilha, a denúncia ao sistema de exclusão brasileiro, que faz dos pobres criminosos, defendendo Sandro a todo momento (“Sabe qual é a maior vítima de todas?”, diz uma das personagens em dado momento, “Você”): retrata, com propriedade, a criação de criminosos por uma realidade que tem apenas o auxílio do altruísmo como alternativa (a participação da líder de uma ONG, interpretada por Anna Cotrim, é vital para o desenrolar da trama).
E é aqui que chegamos num dos problemas de Última Parada: 174. O que deveria ser o retrato de uma sociedade injusta acaba sendo um grande estereótipo. Seus personagens são totalmente unidimensionais. E então, quando tenta trazer complexidade para as atitudes de Sandro e sua loucura pós-traumática, o filme acaba soando confuso e sem sentido (“Se o copo quebrasse, a senhora ia morrer e eu ia ficar sozinho”, ok). Ora vítima, ora culpado, a alternância da personalidade de Sandro é mais esquizofrênica do que bem construída.
Por sorte, esses deslizes são opostos pelas atuações. Apesar das permissões excessivas de Barreto para gírias e palavrões, os atores – todos pouco conhecidos, com exceção de Douglas Silva, em rápida aparição – estão, em sua maioria, inspirados; vide Michel Gomes interpretando o protagonista. Visivelmente (e talvez demasiadamente) ensaiado, o rapaz é uma promessa e tanto. Alê Monstro, interpretado por Marcello Melo Jr., também tem ótima participação. Infelizmente, a intérprete de Marisa, mãe verdadeira de Alê e mãe adotiva de Sandro, é privilegiadaa pela maquiagem e pelo figurino, visto que sua expressão é sempre a mesma.
E já que estamos no assunto, a direção de arte do filme é cuidadosa (é engraçado perceber que a pouco mais de dez anos, as mulheres usavam peças ainda mais curtas – assim como os homens e seus shortinhos) e a fotografia opta por ser simples e funcional.
Infelizmente, há o problema na direção. Barreto apela para takes desnecessários e lances humorísticos desapropriados. Além de caracterizar seus personagens com particularidades únicas (todos são estereótipos caricatos de uma realidade já conhecida; como o pastor nordestino), Barreto tem um pequeno problema em criar relação entre suas cenas: vide as indevidas piadinhas colocadas na cena mais dramática do longa, a tomada do ônibus.
Última Parada 174 foi escolhido como o filme brasileiro a concorrer uma vaga ao Oscar, mas terá sorte se chegar lá. E é triste saber que um filme tão denso como Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, não tenha sido inscrito à vaga (por opções dos diretores). Pessoalmente, eu votaria em Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro, que é simplesmente excelente em sua montagem. Enfim.
A verdade é que o longa de Bruno Barreto se encaixa na leva de filmes brasileiros que todos esperam e querem ver. E essa visão do cinema tupiniquim é tão estereotipada quanto os personagens deste Última Parada 174.








Pelvini, vc jah pensou em ser crítico de cinema?
se cuida “”