Desde a trágica morte de seu pai, os jantares se resumiam a ele e a mãe sentados à meia luz da sala. Ele tinha treze anos e uma porção de espinhas nas costas. Como se não bastasse, não enxergava sem os óculos. Ultimamente, pensou consigo, andava enxergando melhor de olhos fechados. Podia imaginar o que quisesse, com quem quisesse. À noite, principalmente.
- Devemos conversar sobre o que anda acontecendo com os lençóis? – indagou a mãe, com melancólico ar superior.
Ele ruborizou imediatamente.
- Não.
- Por que você não conversou sobre isso com seu pai antes dele morrer?
“A culpa é minha se comecei a bater punheta depois da morte dele?” – o pensamento veio à boca e quase foi cuspido, mas ele segurou com bravura. Em lugar disso:
- Vou tentar não sujar mais os lençóis. – desculpou-se.
A mãe dá um muxoxo e sai da sala levando seu prato e seu copo meio vazio. Ouve-se o barulho de pratos e panelas vindo da cozinha. Sozinho na ponta da mesa, ele pousa o óculos na superfície e tudo fica embassado, inclusive sua culpa em existir.
- Saia do lugar onde seu pai sentava.
Ela se retira. Ele joga os óculos no chão.
Na madrugada, a mãe se levanta para o trabalho. Alguns minutos depois, ele acorda. Ela não arruma a cama, não toma café, não se despede. Ele não se ergue, não se mexe, verifica o próprio corpo. Ela sai. Ele se levanta. Ela atravessa a rua. Ele atravessa o corredor. Ela vira a esquina. Ele arruma os lençóis da cama dos pais. Ela deixa cair a bolsa. Ele joga os travesseiros no chão.
Suado, despe as roupas com hesitação. A cueca fica entre os tornozelos. É a única peça que veste além dos óculos. Vira o corpo, cai na cama.
A mãe tentar guardar as coisas na bolsa. Não percebe, mas está chorando. Ninguém vê o rapaz mal intencionado que surge no fim da rua. Os documentos estão espalhados pela vala. O dinheiro também.
Ele contrai os pés, morde o lábio, aperta o colchão com força, fecha e revira os olhos.
Um assalto. Um espasmo. A cabeça, no chão. O corpo, na cama. Ela grita de dor. Ele geme de prazer. Ela sangra. Ele goza. Ela perde e ele ganha.
O líquido branco suja os lençóis. O líquido vermelho esvai-se pelo asfalto.
Propositada e acidentalmente.








e cada um tem seu tempo e sua forma de reação…
a lá nelson,
masa tão perfeito quanto rafael.
=*
bonitinho, mas ordinário.