Lembra-se de Verão? Existe outro conto, que integra as Quatro Estações, chamado Outono. Não tão depressivo quanto o outro, mas não tão feliz.
* * *
As folhas secas do outono cobriam toda a rua arborizada, balançando com o vento incessante da estação.
Fazia exatamente um ano…
“Ele, Leonardo, com a máscara prateada e preta nos olhos. Dezenove anos, cabelos e olhos escuros como a noite.
Aquela era mais uma daquelas noites promovidas pela lanchonete mais famosa da cidade. O baile das máscaras.
Leonardo e os amigos, sentados na mesa coberta com a toalha vermelha. A música tocando e encantando quem estava na pista, dançando.
- Veja, Leonardo.- falou Tiago. Leonardo não ouviu. A música estava alta? Sim, mas nem tanto, e Leonardo não ouviu, pois prestava atenção em outra coisa.
Uma garota com um lindo e provocante vestido vermelho, uma máscara dourada em volta dos olhos verdes, os cabelos castanhos caindo suave por seu corpo.
- Ah, já viu.- disse Tiago, dessa vez para si mesmo.
Ela, Juliana. Sem namorado, simplesmente linda, esperando um convite para uma dança. A pista não estava cheia. Aquela noite era menos agitada, mais romântica; os adolescentes preferem a música agitada e exorbitante.
Quando trocou a música, Juliana olhou para Leonardo pela primeira vez.
Ele sorriu, ela olhou para baixo, sem jeito. Depois, levantou a cabeça e ostentou o olhar.
Leonardo se levantou, dirigindo-se até ela.
- Me dá o prazer desta dança?- perguntou ele, estendendo a mão.
Ela segurou a mão dele.
O início de uma grande paixão.”
Brisa constante que esfria os corpos.
Tarde triste, rua desolada. Leonardo sentado no meio-fio, observando a própria solidão, ouvindo o farfalhar das folhas…
Pensando o quanto o outono era… Misterioso.
Ainda ontem, o sol despontava no céu. Não estava calor, mas a visão da luz iluminando as árvores desfolhadas, a ausência do vento frio…
“Deitados à beira do lago, observando o lindo e limpo céu azul. De mãos dadas, contemplando também a companhia um do outro.
A grama estava macia e puramente verde, a água do lago estava parada. O único barulho que podiam ouvir eram os pássaros cantando e os carros passando de quando em quando na estrada.
- Vai haver uma festa na casa da Bianca.- contou Juliana, olhando para o namorado.- Vamos?
- Aonde você quiser.- respondeu Leonardo.- Bianca… É um bonito nome.
- Ah, é!?- falou Juliana, se levantando, fingindo-se brava.- Você nunca elogiou meu nome, né?
- Ora, ficou com ciúmes?
- Fiquei!- exclamou ela. E começou a fazer cócegas nele.
Leonardo rindo, pedindo para parar.
- Bianca, né?- provocava Juliana, cutucando as costelas dele.- Você vai ver, só!
Então, ele segurou os braços dela. Juliana caiu por cima dele e, de repente, eles estavam rolando pela grama, rindo, um pouco suados pela brincadeira, felizes. Apenas um casal apaixonado.
Pararam de rolar bem pertinho do lago.
Um encarando o outro, Juliana em cima dele, os belos cabelos agora bagunçados e sujos de grama.
- Olha, Juliana…- começou Leonardo, mas a mão da garota foi até sua boca e ele silenciou.
Ela se aproximou e eles se beijaram docemente, uma espécie de cartão postal amoroso, o lago de um lado, a estrada e a floresta do outro…”
O céu manchado de nuvens brancas, leves, finas. Leonardo ainda no meio-fio, sentado…
Sozinho.
A rua parece mais deserta do que já está, a sensação de estar sozinho no mundo muito presente… Dores da despedida.
Um carro passa na rua, mas Leonardo presta atenção nas folhas que balançam, jogadas ao vento… Talvez fosse daquele jeito que ele se sentia, como as folhas abandonadas das árvores…
“Uma linda garota está andando e ele mal pode acreditar que era Juliana. Adolescente de sorte, ele. Tinha a namorada mais linda da cidade. Leonardo disse isso pra ela.
- Exagero seu.- contou ela.- Capricho de namorado.
- Estou falando sério!- reafirmou ele.
- É? Então liga o carro e vamos.
Beijaram-se e Leonardo ligou o carro.
Uma das noites mais divertidas que tiveram. Era mais uma das noites promovida por aquela lanchonete.
Voltaram conversando alegremente no carro, como um casal que se conhecia a muito tempo. Chegaram até a casa de Juliana.
Despedidas.
- Léo… Daqui dois meses vai haver o vestibular naquela faculdade de Biologia que eu te falei.
Leonardo puxou pela memória.
- Sei…- disse ele, vagamente. Então lembrou onde ficava a faculdade.- Aquela quase do outro lado do mundo.
- Quinhentos quilômetros, eu acho.- chutou ela.
- Você vai? Realmente vai?- perguntou ele, temendo a resposta.
- Vou fazer a prova.- disse ela.- Biologia é meu sonho, você sabe disso.
Leonardo ficou um tempo sem falar, Juliana esperava qualquer resposta…
- Faça o que é melhor pra você.- disse ele, finalmente. Mas não havia compreensão na sua voz.
Juliana saiu do carro, sem ao menos dizer boa noite.”
O asfalto cria um belo contraste com as folhas marrons e secas. O ar parou por alguns momentos, mas os pensamentos e lembranças de Leonardo não pararam.
Em relação à Juliana, as lembranças jamais cessariam.
Olhou para o relógio no pulso.
Ponteiro maior e menor no número três.
“Naquela manhã fria, Juliana chegou na casa de Leonardo, aquele sorriso despontando na boca, com uma ótima notícia.
Passara na faculdade.
Tinha medo da reação de Leonardo.
- Léo!- chamou ela, tocando a campainha. Foi a mãe de Leonardo que atendeu.
- Bom dia, Jú.- cumprimentou a mãe.- O Leonardo não está.
- Não?- estranhou Juliana.”
Leonardo, revoltado com a lembrança, se levantou e tentou chutar uma folha, que se quebrou no seu tênis. Olhou para o céu novamente. As nuvens não se mexiam.
Agora, o ponteiro grande estava entre o três e o quarto.
“Juliana conseguiu carona com Tiago até o lago.
- Estranho…- murmurou ela para si mesmo, ao pisar na grama, que estava seca naquela época do ano. O carro de Leonardo estava parado ali.
A garota começou a descer o morro que levava até o lago, mal sabendo a cena que estava prestes a presenciar.
Leonardo aos beijos com Bianca.
Naquele momento, quando um namorado viu o outro, os dois esqueceram de tudo. Do frio, da faculdade, do que viveram juntos.
Traição – sensação amarga que destrói qualquer coração
- Passei na faculdade.- contou Juliana, lutando contra as lágrimas que queriam rolar-lhe a face.
- Jú, eu…
- Acho que afinal fiz o que era melhor pra mim não, é?- interrompeu ela, evitando explicações que não mudariam a dor que sentia.”
As últimas palavras de Juliana ecoaram na mente (e coração) de Leonardo.
Canalha.
Magoado pela decisão de Juliana, a decisão de seguir o próprio sonho, corroeu seu coração, destruí seu juízo…
Traiu.
Juliana mudaria para um lugar longe e então seria o fim de tudo. Ou ele estava sendo dramático demais?
Foi quase inconsciente que Leonardo entrou no carro e correu para a rodoviária, queimando o asfalto da rua.
“- Eu vou partir amanhã. – contou Juliana.
Leonardo abanou a cabeça, assentindo.
- Deseja-me sorte.- pediu ela.
- Você não precisa de sorte.- disse ele, quase seco.”
Chegaria em tempo?
As ruas estavam vazias, típica tarde de sábado de cidades pequenas do interior. Nenhum carro, apenas algumas pessoas passando… Ali não havia folhas no chão- o único sinal que a natureza existia eram os pombos pousados nos fios de eletricidade.
O dia estava levemente escuro, conseqüência do outono.
Sinal fechado.
“- Dona Marisa? – no dia seguinte a traição, Leonardo telefonou para a casa daquela que considerava sua namorada.
- Ela não quer falar com você, Leonardo. – contou Marisa, diretamente.”
Feriu ela profundamente.
O sinal abre.
Nada pararia Leonardo naquele instante, nada…
Ia ao encontro de seu amor, daquela pessoa que lhe dera centenas motivos para ele sorrir, a garota determinada, amorosa e linda que era sua namorada.
Sim, agora entendia. A distância não destrói amores, corações, nem pessoas.
Apenas saciava a vontade e crescia a saudade…
Crescia a paixão que ele sentia, e naquele momento, Juliana era a única coisa na sua mente.
“- Foi um erro Bianca.- dissera ele.
- Erro?
- Juliana é minha namorada..- contou ele, bravo.- Ela é minha namorada.”
Ele estacionou o carro de qualquer jeito e correu para encontrar Juliana sentada, esperando seu ônibus.
Mas a rodoviária estava vazia.
Ele não enxergou Juliana entre as poucas pessoas que andavam por ali naquele momento. Juliana desistira da faculdade?
Desistira?
Correu para o único guichê aberto onde se comprava passagens.
- Senhor, Senhor…- chamou ele.- Os ônibus das três e meia chegam quando?
- Só tem um ônibus que passa as três e meia.- respondeu o funcionário da rodoviária, com certo orgulho na voz.- Ele chegou mais cedo. Já partiu.
Leonardo suspirou, decepcionado, quase chorando. Suas pernas não se mexiam… Não a veria mais…
Alguém tocou seu ombro.
Quase sorrindo, esperanças no peito, ele se virou.
Não era Juliana.
- Eu preciso comprar uma passagem, menino.- disse a senhora parada atrás dele.
Leonardo se afastou, passos arrastados até seu carro.
A cidade (e sua vida) era o lugar mais vazio do mundo… Nada mais tinha significado.
Despedida amarga. Fria. E silenciosa.
Assim como o outono.








por incrível que pareça, eu nunca gostei desse nome, Bianca.
mas o texto está formidável, mais uma vez =D
Sim, seus textos são sempre tão perfeitos…
=]
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