If You Fall

Let’s just sing
And we’ll fill the air with melodies that blend together
You speak so sweet with words so delicate
A glass I hope will never shatter

- If You Fall, Azure Ray

* * *

Com um monte de malas na mão, muito maiores que sua própria pessoa, Bianca andava solitariamente pelo aeroporto, esperando uma hora para o anúncio de embarque à Paris. Um ano inteirinho por lá, seria incrível.

Era triste, porém, ter que se despedir de tudo que cultivara de bom em sua vida na cidade de São Bernardo do Campo. Os bons amigos, as risadas, as lágrimas…

- Nem mesmo a festa de despedida foi o suficiente… – disse ela, de si para si, enquanto despachava as malas.

Naquela tarde nostálgica e ensolarada de março, Bianca, a moça mais linda e feliz que todos conheciam, estava sem sua máscara. Não conseguia demonstrar nenhuma felicidade com a viagem… Fato este que a fizera negar a vinda da família até o aeroporto. Despediu-se deles quando entrou no táxi.

- A garota mais feliz do mundo não poderia chorar de tristeza na frente dos que ama… – continuou ela, falando sozinha. – Me vê um copo de água mineral, por favor.

O moço da lanchonete estendeu o copo de plástico e Bianca o pagou. Abriu e tomou um gole. Agora, era esperar. Esperar que o avião a levasse para o início de uma vida, para uma nova etapa, onde – será? – faria novos amigos. E ela só queria que as pessoas parassem de ver que ela era incrível, belíssima, feliz. Ela era humana… E vulnerável, às vezes…

E isso ficaria evidente em alguns segundos, quando uma surpresa surgiria para marcá-la.

- Formiga! – ela ouviu uma voz muito familiar chamar seu nome; ou melhor, seu sobrenome. A garota dos cachos pretos não pôde acreditar. Simplesmente ficou ali parada, vendo o rapaz se aproximar, com um sorriso quase tão doce quanto o dela, correndo, levemente desesperado.

Seu copo de plástico com água simplesmente caiu no chão, molhando um pouco da sua calça, mas a situação era simplesmente impossível.

- Felix, não acredito! – exclamou ela, e os dois se abraçaram.

- Ah, Fu! Não me solta, nunca! – disse ele, emocionado.

Devem ter ficado por um longo e quase eterno minuto abraçados muito forte. Bianca não podia acreditar. O aeroporto de Congonhas era longe demais, mesmo para quem viesse de táxi. Ela mesma saíra com muita antecedência de casa para não chegar atrasada.

- Você é louco, Felix?! – perguntou ela, um misto de admiração e felicidade.

- Eu acordei hoje cedo e pensei “cara, a Bianca vai embora e eu tô aqui dormindo”. Eu nunca me perdoaria se não te desse outro abraço antes de você ir.

Os olhos dela estavam simplesmente molhados, mas ela segurou as lágrimas com convicção. Rafael, vestido da mesma forma de sempre – calça jeans, camiseta e all star – parecia não poder estar mais radiante. Deixar uma amiga tão preciosa feliz era o que lhe fazia feliz, e jogar tudo pro alto e encontra-la no aeroporto fora uma escolha acertada.

- Agora eu tenho certeza disso.

- Disso o quê?

Ele deu uma risada.

- Esquece. Temos quanto tempo até sua partida?

Bianca olhou no relógio.

Uns quarenta minutos.

- Hum… Dá tempo de fazer muita coisa, não? – brincou ele, irônico – Vamos tomar um sorvete.

- Sorvete me parece ótimo. – comentou ela, feliz.

“Como ele conseguiu aparecer na hora que eu estava justamente mais triste?” – pensava ela.

Rafael enlaçou a amiga pelo ombro e a guiou rumo a uma sorveteria ali por perto, dentro do aeroporto mesmo.

- Meu, parece que eu tô sonhando. – comentou, enquanto pedia duas banana-split. – Me acorda, Formiga.

- Afe, cara, você não existe!

- Ah, que bonitinha! – disse ele, abraçando-a enquanto pagava os sorvetes. – Tem certeza de que eu não tô sonhando?

É incrível como, entre amigos, o tempo passa voando. Sentaram-se numa mesa a dois, jogando papo fora enquanto saboreavam o sorvete e riam de si mesmos. Se certos momentos são indescritíveis em papel, ou impossíveis de se traduzir em palavras… Bom, esse seria um destes momentos.

E, por uma dessas coisas loucas do destino, essas coincidências malucas, Rafael viu uma coisa. E uma idéia luminosa surgiu em sua mente, e ele se levantou, e Bianca perguntou-se o que viria em seguida.

- Não saia daqui. – falou o rapaz.- Eu volto em cinco minutos.

Bianca olhou para o relógio, enquanto seu amigo corria sabe-se lá para onde. Tomou mais uma colherada do sorvete, pensando que esses cinco minutos seriam apenas um tempo a menos para curtir com o amigo.

- Ah, Não! – exclamou ela.

Rafael voltara, mas não voltara sozinho. Segurava nas mãos uma única e simples tulipa vermelha, provavelmente a flor favorita da amiga.

Ela deu um daqueles sorrisos eternos que só ela mesmo tem e, então deu um beijo suave na bochecha do amigo, ficando cada vez mais triste e cada vez mais feliz. Pegou a flor e a pousou sobre a mesa, enquanto Rafael se sentava.

- Puxa vida, queria poder te dar alguma coisa…

- Você já me deu muita coisa, fera… – disse ele, com um sorriso quase bobo na cara idiotamente feliz. – Você nem sabe!

Bianca fechou os olhos para replicar com algo mais bonito que aquilo, mas Rafael pegou uma colherada do sorvete antes que ela visse. Sujou o nariz dela e passou sorvete também no queixo da garota.

Ela abriu a boca de surpresa, enquanto Rafael ria de prazer. Ela limpou o sorvete do rosto e, animada, falou:

- Você vai ver, Felix!

Rafael deu um grito e saiu correndo enquanto Bianca pegou a tulipa da mesa e o perseguiu. E, sem que soubessem, estavam vivendo a grande metáfora de suas vidas. Porque, quando estavam juntos, era como se estivessem correndo juntos, rumo à felicidade.

Porque, mesmo sendo difícil colocar em palavras, a amizade desses dois era tudo que podia se resumir de bom… Como entrar numa banheira de espuma depois de um longo dia, ou tomar uma chuva deliciosa num dia ensolarado. Era como sorvete cremoso de morango, ou qualquer coisa boa e gostosa que você possa imaginar.

Rindo, brincando, os dois pararam de correr.

Bianca encarou o amigo, surpresa, enquanto segurava a tulipa na mão.

- Tá ouvindo?

Alguma coisa tocava ao fundo, na música ambiente do aeroporto. Era uma música. Uma música muito importante para os dois…!

- NÃO! – gritaram juntos, chamando atenção de algumas pessoas que por ali passavam.

Estava tocando If You Fall, das Azure Ray, no aeroporto…

- Cara, não pode ser! – exclamou Rafael. – Esse momento é nosso! Eu tinha que vir aqui me despedir, está vendo?

Bianca mal conseguia falar. E sequer teria tempo. Antes que pudessem curtir mais um segundo do momento, ou mais um pouquinho da música…

- “E atenção senhores passageiros com destino à Paris no vôo das 17h30min. Queiram, por gentileza, se dirigir à plataforma 11B. Senhores passageiros…”

- É o meu. – disse ela, como se estivesse acordando.

E foi assim que os dois amigos caíram das nuvens.

- Vem… – falou Rafael, dando um sorrisinho sem graça.

Na verdade, foi Bianca quem os guiou rumo à plataforma 11B. Não estava muito longe, por sorte, e foi lá que pararam. Havia uma fila ligeiramente pequena, e uma comissária de vôo conferia passagens e passaportes.

- Olha… – começou a garota. – Se eu falar “muito obrigada” vai ser muito pouco pro teu coração, ferinha… Você simplesmente não existe…

- Pára. – falou o garoto. – Você é a melhor pessoa que eu conheci em muito, muito tempo… E, vou te contar uma coisa que nunca contei antes…

Ele suspirou.

- Eu nunca pensei que fosse encontrar amigos de novo, e você apareceu e mudou tudo. Eu te amo, cara, é só isso que tenho pra dizer.

Bianca inclinou a cabeça daquele jeitinho terno e fofo que só ela tem e agradeceu.

- Eu te amo também, Felix.

E eles se abraçaram e aquele seria o último abraço em um ano; o último abraço entre Bianca Formiga e Rafael Felix. A fila diminuíra consideravelmente, a garota deveria embarcar.

- Eu vou voltar cheia de histórias pra contar. – disse ela. – Você vai ver.

- Estarei aqui, esperando! – falou ele, sorrindo.

Bianca mostrou os documentos para a comissária e, olhando uma última vez para o amigo, foi embora. Rafael esperou perde-la de vista e deu as costas.

Já sentada em sua poltrona, esperando o avião partir, Bianca olhava pela janelinha com um sorriso misterioso no rosto. Estava partindo, sim. Mas ter o prazer de um momento inesquecível como aqueles já compensava todo o tempo longe.

Ela estava partindo, mas deixava pelo menos uma pessoa que a amava. E isso era reconfortante.

Um leve tremor indicou que estavam partindo. Ela encostou a cabeça na poltrona, mais aliviada, finalmente feliz.

- Tchau, Felix…

Rafael estava no aeroporto ainda, olhando pelo enorme vidro transparente o avião de Bianca correr a pista de decolagem e voar. Como sempre, a sensação solitária de saudades ficou no seu peito, mas não podia estar mais feliz pela amiga.

Ele havia ficado, mas sabia que tinha uma amiga com quem contar. Ela estaria longe, mas a distância nunca foi uma barreira para as amizades verdadeiras.

Uma única lágrima desceu por seu rosto enquanto o já distante avião adentrava pelas nuvens. Misteriosamente, ele também sorriu enquanto dizia…

- Tchau, Bianca…

* * *

Não, isso não aconteceu e nem vai acontecer (mas se acontecesse seria cool). É lúdico, irreal e imaginativo. No entanto, fala de uma despedida. Isso basta.

About pelvini

Um sonhador que escreve seus pensamentos através da sinceridade do coração. Você pode enviar um e-mail pra ele através do contato@pelvini.com. Ele ficará feliz.
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One Response to If You Fall

  1. Mah says:

    Só vc mesmo, viu…

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