12.11

“Perdus les rêves de s’aimer
Lê temps où on avait rien fait
Il nous reste tounte une vie pour pleurer
Et maintenat nous sommes tout seul”

- Placebo, Protege Moi.

* * *

 Londres, 12 de Novembro

L.A.,

Ainda sinto falta de seu fresco hálito de vinho e de sua língua contra a minha, em nossa despedida. Quero perder minhas mãos novamente em suas mechas loiras, platinadas, enquanto nossos lábios se perdem num beijo fervorosamente longo.

O tempo passa, e como passa. Mas ainda posso me lembrar, minha querida. Posso me lembrar de seu rosto clamante por amparo enquanto eu, inocente e bobo, dava atenção ao que outros diziam de sua inconstante bravura – o que, erroneamente, chamavam de estupidez. O que eu, erroneamente, acreditei por tempo demais.

Ainda temos as tulipas. Ainda temos as estrelas, e o gostinho insaciável de amor proibido. Ainda temos aquela noite deliciosa, e posso ouvir seus sussurros, seus gracejos, enquanto, sempre chamativa e sensual, agradecia proteção. E, quanto mais juntos ficávamos, e quanto mais eu transpirava e você me acalmava, o desejo só deixava se intensificar.

* * *

Havia uma bela taça de vinho sobre a mesa – lembra-se? Você molhou os lábios com um sorriso malicioso, enquanto tudo o que eu queria era te segurar e te abraçar e te conter em mim. As coisas ficaram por esse rumo mesmo. A taça de vinho caiu quando me aproximei. O líquido escuro manchou a toalha de renda branca. E nós dois acabamos jogados sobre a mesa.

Você tinha a ousadia e a paciência raras de se encontrar em uma amada. Tinha a intensidade e a perversão importantes de se descobrir em uma amante. Sua respiração ofegante, um sopro de sensualidade; as marcas de suas unhas em minhas costas, marcas ferinas, temporárias, tocantes. Guiada por mim até os lençóis de seda da sua cama, seu olhar cheio de volúpia atiça meu corpo mesmo tanto tempo depois.

A noite estava quente, sendo refletida e traduzida entre nossos corpos. A sua voz, encerrando prazer, intensificando minha vontade. O seu corpo, movimentando-se com rigor, sempre linda, sempre dominante, sempre atraente.

As minhas mãos, as suas mãos. A minha pele, a sua pele. Seus olhos azuis, meus olhos castanhos, e de repente o nosso sensorial fica aguçado. De repente, simultaneamente, nosso amor é deflagrado, há total exibição e o prazer é infinito.

Deleite: é disso que falamos. É disso que experimentamos. E é isso que sentimos. Querida, ainda posso lembrar suas palavras enquanto conversávamos abraçados, juntos por uma última vez antes do adeus.

“Somos apenas brinquedos do destino?”

Eu não soube dizer. Respondi com um suave beijo. Um entrelace de almas, um jogo do destino, mera coincidência. Constatações eternas. Questões cruéis.

E aí saímos, deixando tudo do jeito que estava. Ainda consigo me lembrar, acredite, da taça e do vinho derramado. Hoje percebo que não só a toalha estava manchada. Nossos corações também estariam… Só que para sempre.

* * *

Desculpe. Como sempre, sou só um diplomata pateticamente apaixonado.

* * *

E, para onde enviar essa carta? Talvez você nunca a receba, talvez eu nunca a tire da segunda gaveta do meu armário, talvez eu a queime. Afinal, mesmo que sem querer, mesmo que obrigada, mesmo que injustiçada você teve de desaparecer. Posso ver você andando rumo ao horizonte de sol nascente e céu lilás. Posso ver-te olhando para trás, e desaparecendo por baixo da capa, como que num feitiço.

A pergunta me arrepia todos os dias quando acordo, quando durmo, quando penso, quando respiro. A carta deve ser entregue, se eu puder te encontrar. Só para que você saiba que há um mundo de estrelas, vinho e tulipas cor-de-rosa te esperando, caso um dia seja seguro voltar atrás.

Porque eu te amei, senhorita A.. E porque ainda amo, mesmo depois de tanto tempo, mesmo sem saber se está viva, mesmo sem saber se já estou morto. Porque há esperança nesse coração endurecido por uma perda injusta. Aquele coração tolo e ingênuo que você conhece.

E quando você voltar, e você vai, quero que saiba que estarei preparado, minha querida.

Para te amar e te proteger.

Sempre.

N. H.

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Um sonhador que escreve seus pensamentos através da sinceridade do coração. Você pode enviar um e-mail pra ele através do contato@pelvini.com. Ele ficará feliz.
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7 Responses to 12.11

  1. Mah says:

    O Rafa não está apaixonado!
    O Rafa não está apaixonado!
    O Rafa não está apaixonado!

    ;*

  2. Emile says:

    Só digo isso: UAU !!!

  3. Phil says:

    Meu caro, primeiramente bons dias!
    Quero lhe dizer que em muitíssimo tempo não encontro tão bela narração que envolvesse um belo caso como este!
    É fantástico o poder da crônica, que um bom escritor possuí em mão!
    Parabéns pelas linhas, simplesmente fantásticas!

    Um grande abraço,

    Philipe.

  4. L.A. says:

    Wherever you are.

  5. Pingback: Placebo - Song to Say Goodbye « Pelvini

  6. Pingback: Envelhecer « Pelvini

  7. L. A. says:

    Pra mim, essa sempre vai ser a melhor carta que você já escreveu.

    Amo o dono dessas palavras.

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