Sem Calços

Você sabe que, por indevida escolha de vida, sempre fui metade encolhido metade sozinho: o aluno do canto da mesa que não sabe segurar o pincel. Quando morava em um condomínio e tinha seis ou sete anos, meus dois melhores amigos, que eram irmãos e moravam no prédio ao lado, brincavam comigo de inventar histórias. Na casa deles eu podia ser o herói, se quisesse. Mas com eles eu também não me importava em ser vilão – juro. Lá os dias eram felizes dessa forma pastosa que a infância é; como guache misturado, seco e exagerado na folha de papel, e eu encontro felicidade quando a folha fica quase rasgando de tanta tinta que a criança soltou nela. Difícil a infância ser assim, tinta o bastante para vazar e rasgar a vida inteira… E, enfim. À parte disso, aconteceu. Estava indo embora da casa dos meninos quando, no hall do prédio, encontrei uns garotos mais velhos. Minha infante lembrança é pastosa, tudo se mistura e eu nem lembro direito deles. “Vem aqui todo dia, não pode vir aqui todo dia”, disse um. “É, você não sai daqui do nosso prédio”, e minha cara fez alguém tornar um “Tá com medo, viadinho?” (contradizendo-me, lembro o que disseram porque minha memória é contada em palavras), e daí eu tentei fugir. Fui segurado por um enquanto os outros dois arriavam minhas calças para o chão. Seminu à queima-roupa. Corri com lágrima nos olhos, chorando para o porteiro “abre o portão pra mim…”, risadas burlescas e juvenis ao fundo, minhas mãos pequenas arrumando a cueca que subi desajeitadamente antes de correr.

Desde tal constrangimento tenho pesadelos sérios em que perco calça e cueca em público. Em vida, porém, nunca me envergonhei em tirá-las quando devidamente oportuno. Eu perdi o calço nesse dia que fiquei sem calças.

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Seu Silêncio

Das coisas que não entendo, mais me intriga seu silêncio. Enigmático sem pretender ser, dialoga com o que falo na mesma potência – maior, talvez – de suas palavras proferidas. Seu silêncio me é cômodo. É meu travesseiro, meu colchão. Às vezes é meu cobertor, que não me esquenta a suar, mas abraça a esquentar. Às vezes é só um prato com sopa morninha. Às vezes é uma mão segurando a minha.

Silenciar-se dá poder às palavras que você escolhe eventualmente, pois, quando o faz, encontra sinônimos suaves que, não ironicamente: suavizam-me. E seu silêncio assim também é; suave é sozinho, é simples e é sorriso, um meu. Mas me intriga. Jamais te achei óbvia e isso ajuda no enigma, e seu silêncio é minha pergunta de número um: pioneira em confundir. Como reagir? Se quando os grandes falam os pequenos devem ouvir, me apequeno diante de tudo o que você não diz. E assim conversamos.

As palavras têm um peso grande em mim. Se você não fala, e quando fala, me atinge em cheio, me preenche e me transborda. Mas não pesa. Nunca pesa. E eu posso fazer um monólogo, vomitar minhas palavras, atacá-la com frases, ler um livro em vozes… Se você dá seu silêncio, tenho só uma saída: coloco um “nós” antes da quietude.

E silencio.

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Do jeito que não sou

Nunca me perguntaram se eu gosto do jeito que sou. A resposta não seria óbvia, garanto – mesmo sendo uma questão que exige um automático “sim”. Como quando se encontra alguém e se ouve um “tudo bem?” e você responde “sim, tudo bem”, ainda que sua casa seja um prédio em chamas. Acho que perguntar se eu gosto do jeito que sou é como perguntar se está tudo bem. A resposta, não menos óbvia, é: gosto do jeito que não sou.

Não houve tempo onde a vida, a minha, era mais simples. As preocupações enrustidas evoluíram para fora do armário e mesmo que pudessem pintar paredes, apenas se acomodam na poltrona do meu quarto. Ainda assim, perto ou longe, escondidas ou não, continuam sendo: preocupações. Fim. Sou um cara tão solitário que faço dos meus sentimentos minha companhia abstrata.

Insisto, porém, que gosto do jeito que não sou.

Um dia, ainda menino, uns rapazes pararam no alto da escada e falaram que dali eu não passava. Me senti injustiçado e confuso, era minha escola também. Tentei passar, não deixaram. Isso termina com a minha mochila caída no portão, é claro, mas a única coisa que me incomoda – hoje, pelo menos – é não saber a expressão no meu rosto naquele momento. Desde então fico assim, usualmente desejando me ver sendo. Talvez eu poderia dizer para mim “ei, sua testa fica enrugada desse jeito assim, não é legal” ou algo como “perceberem que você quer chorar te desarma tanto quanto te verem chorando”. Sei lá. Não me incomoda porque gosto do jeito que não sou – estou do jeito errado, mesmo.

Procuro livro intitulado “Como Aprender a Ser”. Quem tiver que empreste.

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Um Tempo

Acordei chorando. Colocaram um disco do passado para repetir e, veja bem: devo ser um dos únicos que se arrepende da própria infância. Ou vai ver – clamo – ter esse acréscimo de sentimentos mesquinhos é normal. Mas, como alguém que gosta de mentiras, sempre acreditei que os derivados do egoísmo não fossem capazes de, como meus sonhos, me fazerem sentir a água quente que riscou meu rosto de manhã. O que me conduz a escrever essa penitência, em lágrimas. Pessimismo por pessimismo, às vezes acho que o ato de escrever já me levou até onde podia levar.

* * *

Eu preciso de um tempo.

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